domingo, 3 de julho de 2011

O prazer revelado

Eu não sei como uma fotógrafa se sente, mas faço uma ideia. Imagine só: uma pessoa que tira fotos belíssimas de outras pessoas, faz com que momentos lindos sejam registrados lindamente por meio da luz correta, enquadramento que valoriza a paisagem, melhor ângulo e tal... Daí, a pobre fotógrafa pede para alguém, um transeunte qualquer, registrar aquele momento dela, com aquele cenário massa ao fundo e... pimba! O fotógrafo transeunte corta-lhe o rosto, o braço ou a orelha! Obviamente que as pessoas não tem obrigação de fotografar bem, afinal, agora que as câmeras digitais estão se popularizando. Mas pobre fotógrafa... ela também tem o direito de ter o seu momento registrado com o mínimo de dignidade.


Isso me fez lembrar do meu tempo de faculdade. Não sei tirar fotos profissionalmente (apesar de querer aprender, um dia...), mas na formação em Comunicação Social, tive a oportunidade de ter umas parcas noções de fótugrafia (como dizia meu professor, Thomas Hoag). Aprendi a tirar foto com com pinhole (aquela câmera feita com caixa de sapato) e o mais fenomenal: o processo de revelação. Hoje em dia falar em revelar fotos soa tão antiquado quanto falar em bater chapa, lambe-lambe, filme de 12, 24 e 36 poses, etc... Só se fala em impressão de foto digital em uma hora. Entretanto, eu acredito que eu fui presenteada ao aprender o processo de revelação de fotos. Quer ver só?


Primeiro a gente comprava os bagulhos, em 2004 já não era muito fácil encontrar. Filme, revelador, interruptor, fixador e papel fotográfico. Tudo em P&B*. Na faculdade a lei que manda é a Lei do Menor Orçamento, então tentávamos sempre aprender de um jeito que gastasse o mínimo de grana possível. Por isso, comprávamos um rolão de filme e tínhamos de dividí-los em rolinhos menores. Detalhe: tudo feito no mais absoluto breu. Nada, nadinha de luz. Só na base do tato. Então, saíamos para tirar as fotos. Eram três os exercícios de fotos em movimento, mas eu só lembro do panning, me perdoem. Quem sabe outro dia falaremos mais sobre isso?


Depois da fotos tiradas, vamos à revelação. Na salinha escura a gente colocava o filme dentro de uma latinha com uma espiral dentro. Tudo na base do tato e da técnica, se alguma coisa saísse errado perdia-se todas as etapas feitas até ali. Tínhamos de ter cuidado para que uma parte do filme não encostasse na outra. Daí, colocávamos o revelador nessa latinha à prova de luz e esperávamos agir a parada. Depois enxaguávamos e podíamos retirar os filmes revelados. Parece fácil quando descrito assim, ? Mas você não imagina quantas cenas de raiva e desespero eu já presenciei naquele laboratório de fotografia da Facomb.


(Se me permite, vou mudar o tempo verbal, tá?)


Agora, a parte da ampliação. É quando você vê seu filho nascer de fato. Depois de escolhida qual foto ampliar, colocamos o filme no aparelho e projetamos a imagem na bancada em branco. Ali determinamos o tamanho, focamos, enquadramos, ou seja, damos forma ao nosso produto final. Pronto, já pode colocar o papel. Liga a luz com a foto de novo e 1, 2, 3, 4, 5. Desliga. A foto já está no papel, apesar de não vermos nadica! É a alma da foto que tá lá.


Pegamos o papel com cuidado e o colocamos na primeira bandeja com o revelador. Então começamos a ver se formar a imagem que capturamos com a câmera. Ela vem surgindo, surgindo, ficando mais intensa e intensa até que atinge o ponto que você quer. Retira-se rápido dali e coloca no interruptor, senão ela vai ficar se revelando, revelando,... (assim como nós, não podemos nos revelar demais aos outros). Interrompeu o processo? Agora fixa! Passa-se a foto na bandeja com o fixador e em seguida podemos enxaguar na água mesmo. E, finalmente, pomos para secar.


Tá vendo o tanto de chance que uma fotografia revelada tem de dar errado? Por isso era tão gostoso. O desafio de fazer algo e no final das contas dar tudo certo, não tem preço. Por essa e outras eu guardo as minhas fotos com todo carinho do mundo. Num futuro, não muito distante, falarei desse processo para o Pedro e só espero que ele não me pergunte se naquele tempo não existia IPad.


P&B*- Preto e branco, black and white, saca?

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