quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Papel de presente ou papelão?

Conversando com um amigo, ele brincou: 
-Gostaria de ser um papel de presente, assim todos olhariam para mim e ficariam felizes. Eu sou uma caixa de papelão que as pessoas querem logo abrir pra ver o que tem dentro, ou querem me usar para carregar coisas, uns me jogam fora, outros me catam na rua para revender.
A interessante metáfora do meu amigo me fez refletir um pouco. Somos papel de presente ou uma caixa de papelão?
Vou limitar a minha interpretação à canção do O Teatro Mágico, que expressou lindamente esse sentimento em "Cidadão de Papelão".

O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, nem voz
Nem terno, nem tampouco ternura
À margem de toda rua, sem identificação, sei não
Um homem de pedra, de pó, de pé no chão
De pé na cova, sem vocação, sem convicção
À margem de toda candura
À margem de toda candura
À margem de toda candura
Um cara, um papo, um sopapo, um papelão
Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura
O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, à sós
Nem farda, nem tampouco fartura
Sem papel, sem assinatura
Se reciclando vai, se vai
À margem de toda candura
À margem de toda candura
Homem de pedra, de pó, de pé no chão
Não habita, se habitua
Não habita, se habitua

Os grifos são meus. São as partes que eu considero mais instigantes da música. 
É assim que nos encontramos? À margem de toda candura? As pessoas não ficariam felizes ou cândidas ao se depararem conosco, como se fôssemos papéis de presente?
Perdemos a ternura e não passamos de ternos andando de lá para cá sem um pingo de convicção, sem sequer saber o porquê de estarmos caminhando, sem vocação alguma?
Quem somos? Qual a nossa identidade? Uma caixa de papelão igual a tantas outras que saem da fábrica?
Encontrei essa animação no Youtube, que considerei bastante pertinente para as minhas indagações e divagações:  http://www.youtube.com/watch?v=zlEMTCg0PT0

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Don't take my hand

O Facebook é um grande conselheiro. 
Tiro muitos conselhos sábios de lá. Ontem mesmo li o seguinte "Durma com ideias e acorde com atitudes."
Estou prestes a tomar uma atitude, com um delay de... digamos... uns dez anos... Nesse momento o ditado "Antes tarde do que nunca" faz todo o sentido do mundo. Mas preciso confessar uma coisa: tenho medo.
Tenho medo do que é novo. Tenho medo dos sentimentos com os quais não consigo lidar. Tenho medo da opinião alheia. E, hoje, no discurso de uma colega do trabalho que se aposentou, veio mais uma frase para somar a esse turbilhão pelo qual estou passando nesse momento. A colega disse mais ou menos assim: eu queria sair daqui à francesa, sem ser notada, sem ter de passar por esse momento aqui, emocionada, despedindo de vocês. Entretanto, eu me lembrei que nunca fugi de nada da minha vida e não é agora que vou fazer isso, nesse momento tão especial para mim. Agradeço a Deus por ter tomado essa decisão, porque me sinto muito feliz por estar aqui com vocês.

Espelhada na atitude dessa minha colega, começo a vislumbrar um novo futuro para mim. Mas é preciso me reconstruir. E, tal qual a reforma que venho realizando na minha casa, não se pode aproveitar tudo do que já se encontrava ali. É preciso destruir e construir novamente, mais belo e com bases sólidas. Sei toda a teoria. Sei exatamente como proceder. Apenas o medo segura a minha mão.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Suicídio sentimental

Ultimamente tenho tido dores no peito, falta de ar, calafrios na barriga, nós na garganta... São sintomas recorrentes de uma alma presa. São sintomas de uma pessoa presa em orgulho. Mas não quero soltá-los. Meus sentimentos soltos são tolos demais, frágeis demais. Ninguém os valoriza, ninguém os leva a sério. Prefiro assim: todos presos dentro de mim, me causando desconfortos e me tirando a paz. Libertar sentimentos soa como fraqueza... e se tem uma coisa que eu não sou é fraca. Fui forte o bastante pra suportar até aqui e vou permanecer suportando... e definhando... e me enclausurando... e sofrendo.

Eu até gostaria de dizê-los, mas para todos que escolhi revelá-los se opuseram a me ouvir. Eu disse ouvir. Porque escutar, até as pedras escutam. 

Sentimentos, fiquem todos aqui no meu peito e permaneçam me esfaqueando de dentro pra fora. Sigam a sua metástase e me levem à sucumbência, se é isso que querem.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Minha viagem à Chapada

Quando recebi o convite para conhecer o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros já estava com outra pequena viagem marcada com algumas amigas. Confesso que não gosto de viajar dois finais de semana seguidos. Entretanto, era um senhor convite. Um daqueles que aparecem raramente e, melhor ainda, tinha chances de dar certo. Sim, vamos.

Tenho de reconhecer que não poderia ter ido em companhia melhor. Uma pessoa amável, educada, disposta (e bota disposição aí, porque eu jamais seria capaz de dirigir todos os quilômetros que ele dirigiu!), zelosa e inteligente. Realmente uma ótima companhia.

As belezas naturais do lugar são inegáveis. A simplicidade do povo interiorano, a misticidade do local e a tranquilidade que o ar puro nos traz é um refresco para a alma e a mente atribulada. Lamentei somente não termos mais dias para desfrutar daquele paraíso. Tantos lugares ainda ficaram por conhecer. Coisas novas para experimentar. Um convite ao retorno.

Os Kalungas - comunidade quilombola de Cavalcante - são uma atração à parte. Mas senti falta de duas coisas: a primeira um trabalho turístico mais comunicativo e a segunda um artesanato mais elaborado. Há muitos quilombolas trabalhando como guias turísticos, entretanto acredito que se explanassem mais sobre a cultura e a história deles, em vez de apenas nos conduzirem às cachoeiras, nos traria ainda mais admiração pela comunidade. E quanto ao artesanato, a região possui matéria-prima em abundância para confeccionar coisas lindíssimas! Com um pouco de profissionalização e cursos de aproveitamento certamente eles poderiam ter um retorno financeiro maior e a disseminação do trabalho deles por várias partes do Brasil.

A Cachoeira de Santa Bárbara é simplesmente linda. O tom azulado da água nos remete à imagens de cinema. Acho inclusive que ela disputa a beleza com a Cachoeira das Capivaras, que lança mão de vários tons esverdeados para nos encantar. Mas as duas se equivalem no que diz respeito à temperatura da água: gelaaaadaaa. Como mil facas perfurando meu lindo corpinho, a friagem nos penetra e faz despertar aquilo que de mais dormente há dentro de nós. Vale a pena conhecê-las.

Mas a minha vedete mesmo, a que balança meu coração e me enche de alegria, eu nem precisaria ir tão longe para encontrá-la. Meu amor é o pequizeiro. Algumas coisas simples têm o dom de me fazer sorrir, o pé de pequi é uma delas. O pequi é relativamente raro, produz apenas uma vez ao ano. Normalmente solitário, ou se em conjuntos, esparsos uns dos outros. Mas mesmo assim, no seu isolamento, mesmo tendo um fruto espinhoso, um cheiro invasivo, uma nódoa única, não deixa de ser requisitado e bem quisto. Para mim é o soberano do cerrado. Aliás gosto daquilo que se destaca nos poeirentos meses de inverno. Inclusive, já escrevi uma lorota sobre o meu querido ipê amarelo. Essas árvores que mesmo na seca do mês de agosto conseguem ser reconhecidas e dar o seu recado e mostrar a que vieram no mundo. Essas, sim, chamam minha atenção. Percorrendo as estradas esburacadas da Chapada, ao ver uma árvore verdinha, com flores branquinhas em meio tantas outras empoeiradas e desfolhadas, meu coração se renovava e mostrava para mim que sempre é tempo de florescer em meio ao cinza. Obrigada, pequizeiro. Obrigada, Chapada. Obrigada, PH.

Instavida

Para gostar de uma pessoa, precisamos gostar de seus defeitos também? Precisamos aceitá-los e aplaudi-los? Bem, se a resposta for não, sinto-me à vontade para partilhar com você esse texto. Se for sim, pode parar de ler por aqui mesmo, porque certamente você não irá gostar do que vai ler.

A minha implicância do dia se refere às pessoas que eu amo de paixão, mas que me irritam profundamente ao postar todas as suas refeições no Facebook ou Instagram. Não imagino de onde surgiu essa propulsão que as pessoas têm de comer uma coisa bonita, aparentemente gostosa e querer mostrar pra todo mundo o que está comendo! Aliás, hoje, o que não é postado parece que não existiu, né? Fico imaginando como esses meus amigos ficariam tristes se não pudessem postar a comida deles:

-Humm... puxa... Não quero nem comer, perdi a vontade... O Instagram está fora do ar! E agora como vou mostrar pra todo mundo essa batatinha orgânica que fritei no óleo de canola argentino com cubinhos de bacon de javali? Acho melhor colocá-la na geladeira e esperar até o Instagram voltar. - Aí o cara fica com fome o dia todo só esperando o momento de partilhar a sua comida (visualmente, é claro) com o maior número de pessoas possível.

Eu não sou contra postar coisas na Internet. Eu mesma faço isso aos quilos. A minha irritação é saber o passo a passo da vida de uma pessoa. Vamos fazer contas: suponhamos que a pessoa durma sete horas por dia, portanto, restam outras 17 horas para tirar fotos. Ainda bem que, por enquanto, estamos sendo privados das fotos dos banheiros – mas acredito que em breve verei fotos de cocôs no vaso circulando por aí – logo, podemos descontar mais uma hora. São 16 horas disponíveis para postar fotos e dizer “bom dia, boa tarde e boa noite”.

-Bom dia, esposinha linda! – Foto da esposa, sorrindo na cama.
(Ué, não acordaram juntos? Por que dar bom dia pela internet?)
-Café da manhã preparado pelo maridão não tem preço. – Foto de duas xícaras de café e cinco bolachas Mabel.
(Sandro Mabel se casou com você agora?)
-Look do dia – Foto de corpo todo diante do espelho fazendo biquinho.
-Trânsito infernal – Foto do trânsito.
-Bora trampar, né? – Foto do computador.
-Almocinho no Giraffas com minha amiga Fulana de Tal...
-Ainda faltam três horas para encontrar minha linda amiga Beltrana de Tal...
-Relembrando a faculdade, em Frans Café com Beltrana de Tal – Foto das duas abraçadas e em seguida foto do café que estão tomando.
-Academia é só para os fortes. – Segurando o celular na frente do espelho com aquele monte de aparelho atrás.
-Filminho espeeerto, pipoca, sofá e maridão é tudo de bom. – Foto da bacia de pipoca com o pé do marido ao fundo.

Aposto que em algum momento você se identificou com essas legendas. Por favor, quero deixar claro que não tenho nada, absolutamente nada contra as pessoas que fazem isso. Continuam sendo meus amigos do mesmo jeito. Entretanto, me preocupa um pouco a perda da individualidade pela qual estamos passando. Tudo precisa ser publicado. Se não está na internet há sérias dúvidas de que sequer existiu. E a necessidade de se mostrar bem sucedido, vem de onde? O café da manhã mais top, o marido mais gato, o look mais impactante... Perdemos a capacidade de sermos triviais, é isso, Arnaldo?