quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Uva páscoa

Certa vez um colega me disse que não temos consciência da educação que damos aos nossos filhos até que alguém nos dê um feedback, do tipo, "nossa! seu filho é tão educado!". Hoje escrevo o texto para discordar do meu amigo. Sim, eu tenho noção da educação que tenho dado ao meu filho. Olha, é uma árdua tarefa de repetição, viu? Falar todos os dias a mesma coisa, a mesma coisa, a mesma coisa... Mas uma hora, quase que por um passe de mágica, você para de repetir aquilo com o passar dos dias.
-Filho, coloque o copo sobre a pia.
-Filho, onde você colocou o copo?
-Filho, por que esse copo está no sofá?
-Pedro, pegue esse copo e o coloque na pia agora!
-Filho... Ops! Não... nada não... - esse é o momento em que eu vejo que o copo está na pia.
Por essas e por outras eu ainda tenho esperança nos homens. Não há nada que a paciência e a perseverança não possa mudar.
Outra situação lindíssima em que eu pude me ver refletida e contemplei parte da minha obra-prima inacabada foi quando ele espirrou perto de mim:
-Mãe, eu espirrei! Você não vai falar nada, não?!
Tipo, ué, você não vive falando pra eu ser educado e dizer "saúde" quando as pessoas espirram? Prova de que um exemplo vale por mil palavras.
Entretanto a ideia desse texto veio ontem quando ele brincava com dois amiguinhos aqui em casa. Pedro chegou com a mão cheia de uvas passas (tive um namorado que o ensinou a fazer pequenas incursões à geladeira atrás das minhas frutinhas desidratadas):
-Meu filho, mas você pegou minhas uvas passas?!
-Mãe, eu dei um tanto assim pra cada um dos meus amiguinhos.
Na hora fiquei contrariada porque eu as estava guardando para uma farofa, mas depois me dei conta do tremendo salto na educação do meu filho. Atualmente, as crianças não dividem coisas. Elas falam umas para as outras "fala pra sua mãe/pai comprar pra você", sem maldade... é o hábito... tipo, na escola, o coleguinha não pede um pouquinho do lanche do outro... ele chega em casa e pede pra mãe comprar um igual. São os valores modernos. Pois bem, meu filho dividiu sua "uva páscoa"* com os amigos e, para um filho único, acho sinceramente que é um excelente começo.
Às vezes fico meio injuriada com esse negócio de ser mãe. Com as perguntas difíceis que temos de responder de uma forma fácil (como são feitos os desenhos animados, como eles chegam na nossa casa e por que não podemos pegar essas tais ondas eletromagnéticas?) , da atenção requisitada a todo momento (agora mesmo tive de gritar "estou escrevendo, filho! não vou aí agora, não!"), da sessão de cinema com os amigos que perdi ontem porque tinha amiguinhos dele aqui, das inúmeras vezes que deixei de fazer alguma coisa porque não tinha com quem deixá-lo, da atenção a ser dispendida (como agora de novo, "mamãe, sai desse computador!"). Confesso que sou humana e, por essas e outras, a maternidade exige muito de mim. Todavia, e sempre há um todavia, acompanhar o crescimento do meu filho e a formação do seu caráter e da sua capacidade intelectual é um fenômeno digno de dar graças a Deus. Que Ele me proporcione ainda muitos anos - sabedoria e sanidade - para poder estar com meu filho e cumprir com maestria esse papel que a mim foi atribuído.

uva páscoa*: 
-É uva passa, filho. 
-Mas por que ela chama uva passa? 
(Ana Paula pensando: Véi, véi, véééii... Por que o menino simplesmente não aceita o que eu digo? A quem ele puxou com esses questionamentos todos? Como a minha mãe sofreu comigo, Jesus amado! Num vou explicar isso para ele agora, porque eu sei que não vai parar por aí. Outra hora eu corrijo isso...)
-Pode falar uva páscoa por enquanto, filho...

Antes que você me julgue e condene a minha decisão, quero só esclarecer que para a mente frenética do meu filho respostas simples como "é porque ela passou da hora de colher" ou "porque as frutas quando ficam secas são chamadas de passas" não seriam satisfatórias. No atual grau de curiosidade dele, a conversa terminaria em outra pergunta: "então, a minha bisavó também é passa?"

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015