quinta-feira, 31 de julho de 2014

Clarissa - Capítulo IV: O Desgosto

Clavícula e costelas quebradas, Clarissa agora passava seus dias a assistir tevê. Lembrava-se apenas de alguns relances do acidente, nada conexo. Dias arrastados. Já não eram de muita emoção há tempos, mas agora, com sua mãe instalada dentro da sua casa para os cuidados necessários, a rotina tornou-se algo quase insuportável. Por um milésimo de segundo sentiu vontade de estar no balcão da farmácia... mas a vontade foi tão efêmera que voltou a se entreter com o seriado na tevê.

E foi assim por dias, semanas e semanas. Alguns amigos mandavam mensagens de ânimo pelo Facebook ou pelo Whatsapp. Alguns poucos foram visitá-la em casa. Mas o que contribuiu de fato para o aumento da tristeza em seus dias acinzentados é que ele - por quem saíra de casa aquela noite, a razão de ter batido o carro, o homem para quem se declararia - não se importou com o estado dela. Ele não mandou mensagem no Facebook, nem no Whatsapp e nem foi vê-la. A hipótese de que ele não soube do acidente foi afastada, porque ela mesma incumbiu alguém de sua inteira confiança para que providenciasse isso. E assim foi feito. Ela aguardou por dias, semanas e semanas um contato, ao menos um "como você está?", qualquer palavra que demonstrasse que ele ainda se importava com ela... mas não aconteceu. Aquela angústia de não ser correspondida em seus anseios, tornava os dias ainda mais fatigantes. A ausência dele, a presença da mãe em seu espaço e a impossibilidade de locomoção, tudo isso fazia com que ela olhasse para o céu e se imaginasse um pássaro, voando para longe dos seus problemas, das suas agonias.

Mas o tempo é sempre solidário a quem sofre. E sua dor foi se dissipando, dia após dia, semana após semana. Clarissa, que pensava demais, decidiu parar de pensar. Não é tão simples, mas era um exercício que ela se propôs a fazer. Sempre que, por um segundo, lembrava-se dele, logo tratava de desviar o pensamento. Tomou um foco e resolveu se dedicar a outras coisas. Suas costelas e clavícula se curaram, seu coração ainda não. Entretanto, ela sabia que devia agir rápido para curá-lo e de seu desgosto surgiu uma fagulha.

De volta a sua rotina - sem mãe, sem ele - pôs-se procurar atividades novas. Foi estudar francês, fazer natação e aprender tocar violão. Se arrumou, pintou o cabelo, fez uma tatuagem, trocou as roupas do armário e viu que tudo aquilo lhe fazia bem. Voltou a sorrir. E seu sorriso atraia olhares e convites e noites com companhias muito agradáveis. Assim, Clarissa foi voltando a viver. Desviando pensamentos, controlando emoções, seus dias voltaram a ter cores. Lágrimas de saudade, não mais.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Clarissa - Capítulo III: A Decisão

Não conseguia ver um palmo diante do seu nariz. Muita fumaça, muita mesmo. O vidro tornara-se uma parede fosca esbranquiçada. Assim era o banho de Clarissa. Habituada sempre a estar anuviada em pensamentos, as nuvens da fumaça quente do banheiro não a incomodavam nem um pouco. Pelo contrário, todo aquele mormaço causava-lhe um tremendo bem-estar. Sentia-se rodeada, abraçada e aquecida, tanto pelo vapor, quanto pela água quente caindo sobre seus ombros. Água quente esta que a fazia relaxar e entrar ainda mais em contato consigo. Naqueles instantes, passava o sabonete por todo o corpo e sentia-se... cada curva... se permitia tocar a sua pele e ter sensações e se conhecer... Escutava o barulho da água caindo e se permitia fazer uma viagem em seu infinito particular.

Após o banho, uma inquietude tomou conta do seu coração. Um daqueles sentimentos que nos incomodam a todo momento e não nos deixam enquanto não lhe estancamos a origem. Ela precisava falar com ele. Era muita coisa represada que implorava para sair. Mesmo que ouvisse um não... quem sabe um sim... Só saberia depois de tentar! 

Sabia que precisaria agir rapidamente, antes que a coragem se abrandasse... antes que voltasse a ser a Clarissa pensante de outrora. Foi ao guarda-roupa escolheu uma linda lingerie vermelha e um vestido também vermelho. Ora pois, se vermelho era a cor do amor, pensou ela, não custa nada reforçar com um batom escarlate. Uma última ajeitada diante do espelho e pôs-se a repetir o texto que ensaiara para declamar a ele: "ainda gosto muito de você. Quero voltar..." Pois, dentre as poucas coisas que Clarissa sabe sobre homens, uma delas é que a mulher deve ser direta se quiser se fazer ser entendida por um homem. 

E assim, fechou a sua casa e foi abrir seu coração.

Entretanto, o destino às vezes é cruel e Clarissa não conseguiu encontrar aquele que traria nova alegria aos seus dias. Ao passar por um cruzamento foi atingida em cheio por uma caminhonete em alta velocidade que passara no sinal vermelho. Seu carro foi lançado contra um poste que, com a pancada, partiu-se e caiu sobre ele. Quando os bombeiros chegaram, Clarissa estava muito ferida e inconsciente.

domingo, 20 de julho de 2014

Clarissa - Capítulo II: O Arrependimento

Permaneceu no sofá por mais de uma hora, entre devaneios e saudades. Até que foi interrompida por uma dor forte, daquelas que são acometidas as pessoas que não comem há mais de cinco horas. De fato, deveria estar com fome. As quatro bolachinhas Mabel e o café do lanche há muito haviam virado quimo. Ai o café... Clarissa tem gastrite. Como um bichinho de estimação ela começou a se desenvolver por conta de um relacionamento mal sucedido há uns oito anos. Acordava, pensava nele e o estômago doía. Saia correndo para o banheiro para vomitar, mas nada saía além de um líquido amarelo e amargo... tão amarga quanto a sensação de pensar naquela relação que estava vivendo. Lembrou-se daqueles dias e se arrependeu. Por instantes, se perguntou como pôde levar por tanto tempo algo que lhe fazia tão mal?

Levantou-se e foi para a cozinha preparar algo para comer. Podia fazer um bolo... mas sempre ficavam recobertos de mofo após o terceiro dia, pois não havia ninguém para comer com ela. Por isso Clarissa fazia bolo para as visitas: gostava de ter com quem dividir. Entretanto, como sempre, optou pelo bom e velfho sanduíche de presunto com queijo. Ela acredita, inclusive, que as bandejinhas de frios fatiados vendidos no supermercado foram a melhor invenção feita para os solteiros. Um sanduíche no café, outro no almoço, lanche e jantar. Preparou seu sanduíche e o traçou com um geladíssimo copo de Coca-Cola. Os mais rigorosos podem se perguntar: mas, e a gastrite? Clarissa sabe das coisas que lhe fazem mal e se envergonha por não conseguir parar de consumi-las. Sente dentro de si uma tristeza toda vez que faz algo que não deveria, e esse, é mais um dos arrependimentos que ela carrega em si: de não conseguir ser mais forte que suas vontades.

Clarissa tem uma coleção de coisas que faria diferente se pudesse voltar no tempo. Não teria ficado apaixonada tanto tempo por um menino só na adolescência, não teria feito o curso superior que fez, teria insistido mais com a mãe para conhecer o pai, não teria transado nenhuma vez sem camisinha, teria viajado para a Europa em vez de comprar um apartamento, mais banhos de chuva, menos intrigas, mais porres...

Ainda meio abalada pela saudade do capítulo anterior, Clarissa se chateou. Ficou brava consigo e com seus impulsos, tanto pela falta de controle relatada acima, quanto ao descontrole emocional nos momentos de raiva. Por que havia sido tão dura com ele? Pra que falou tanta coisa que ele não merecia ouvir? Sim, ele havia errado. Pisou na bola. Magoou-a. Todavia ela havia sido intransigente demais. E se arreepende por isso. E por não conhecê-lo, pensou que voltaria. Mas não voltou. Então, com o tempo se deu conta do quanto o havia ferido com suas palavras. Clarissa traz em si essa culpa, como tantas outras, mas não sabe como voltar atrás... Já quis ir até sua casa e dizer tudo que sente e pedir desculpas e se proporcionarem uma nova chance, mas não conseguiu... Enquanto isso, ela fica assim: oscilando entre o desejo de tê-lo novamente ao seu lado e a incapacidade de se mover, a inércia que a prende onde está.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Clarissa - Capítulo I: A Saudade

Clarissa chegou em casa mais pensativa do que o normal. Pensa muito, conclui demais... até mais do que deveria. Quisera Clarissa pensasse menos, concluísse menos, talvez tudo fosse mais claro.
Mas ela tem melhorado. Tem se permitido sentir mais. Sentir a terra, sentir o vento, sentir o coração... Coração este que sempre revela tantas surpresas.

Abriu a porta e ligou a lâmpada, encostou-se no portal e depois a apagou, ligou novamente e tornou a apagar, outra vez e outra vez... e o olhar parado fitava um móvel qualquer da sala. Resolveu deixá-la ligada. A luz lhe fazia bem.

Hoje, ao chegar em casa tão pensativa, se jogou no sofá: pés para cima, mãos cruzadas atrás da cabeça. Fez um backup do seu dia, guardou as sensações boas, tirou as devidas lições das ruins e, como um astronauta solto no espaço, começou a pensar...

Sentia saudade dele. Do toque, das mãos no seu cabelo, do peito em que se afagava, do olhar triste, das poucas palavras proferidas, das perguntas instigantes, dos sonhos voláteis... Sentiu saudade dos momentos que estiveram juntos e sentiu ainda mais dos que não estiveram. Daqueles que gostaria de ter vivido. E esta segunda saudade fez uma lágrima rolar pelo canto do olho e escorrer até cair nos cabelos – agora curtos – esparramados pelo sofá.

A saudade lhe assolou de tal forma que ela pensou "e se eu ligasse e...", entretanto não conseguiu concluir. Sentiu que não seria capaz de dizer nada, porque o sentimento lhe tomava tanto a ponto de lhe bloquear o ar e, consequentemente, a voz. Quando se tratava dele e da saudade que arrebatava seu coração, a sensação era tão avassaladora que precisava sair daquele momento a todo custo. Então, pôs-se a lembrar de outros amores, para ver se alguma outra saudade concorria com a dele.

E foi lembrando, lembrando, lembrando e quando viu, já estava pensando no Lucas, o namoradinho da 4ª série. Céus! Como eram maravilhosos seus problemas da 4ª série! Daria tudo para ter um "relacionamento conturbado" como o que tinha com o Lucas, na 4ª série! E começou a rir. A estratégia de desfocar a saudade havia dado certo. Agora, punha-se a recordar - com saudade - a falta de problemas de quando tinha 10 anos. Sentiu saudade das cartinhas escritas em papéis decorados e perfumados e, por um lampejo, lembrou-se de todos os atuais SMS não respondidos. Saudade da balinha Freegell's de cereja deixada dentro do caderno na hora do recreio. Saudade dos longos minutos depois da aula conversando na pracinha perto de casa. Saudade daquele beijo tímido e rápido dado ao se despedir. 

A lembrança do beijo tímido e rápido do Lucas a trouxe de volta ao mundo, ao seu sofá. Nova lágrima voltou a rolar quando se lembrou do primeiro beijo que deram naquela festa. De como ele estava bonito e gentil naquele dia. E uma segunda lágrima escorreu em direção aos cabelos quando percebeu que não se recordava do último beijo que haviam dado um no outro. 

terça-feira, 15 de julho de 2014

Clarissa - a minissérie

Prólogo

A Lorota da Rosa lança-se numa nova experiência. A partir de hoje inicia-se uma minissérie no meu blog. 
Contarei nuances da vida de Clarissa. Faremos uma breve viagem ao interior de uma mulher prestes a completar 30 anos. Convido-o a conhecer seus medos, seus desejos e frustrações.
Clarissa, ao contrário do que o nome indica, não possui ideias claras. Tudo em sua vida é um amontoado que se embaraça com fios dispersos. Mas ela quer mudar e, quem sabe você amigo leitor, possa colaborar nessa história que está apenas começando.

Nasceu há 29 anos, numa cidade grande. Nunca conheceu o pai. A mãe lhe dizia que não valia a pena saber quem era. Que ele não prestava. E assim foi pela meninice, juventude e adultice: quando perguntavam sobre o pai, ela respondia apenas "não tenho". Não preciso nem destacar o que parece lógico: ela não se relacionava muito bem com homens. Nunca compreendeu como aquilo funcionava.

Na escola, nem aplicada, nem relapsa, apenas suficiente. Fazia o que lhe mandavam... nem mais, nem menos. A vida profissional repetia o comportamento do colégio... nem mais, nem menos. Ah, sim, claro! Nossa protagonista fez faculdade! Não fez medicina, não fez filosofia. Tornou-se farmacêutica, trabalhando detrás do balcão de uma farmácia por dias e dias e dias.

Não morava mais com a mãe, justamente por se parecer demais com ela. Não conseguiria conviver consigo duplamente. Uma Clarissa com todos seus devaneios, suposições e ideias obscuras já era demais. Por isso saiu de casa: por menos Clarissas num mesmo espaço.

Bem, feitas as devidas apresentações, resta-me convidá-lo mais uma vez a acompanhar o desfecho da minha minissérie em 5 capítulos. 

Prazer, Clarissa.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A menina do aparelho

Sou fotógrafa. O quê? Você não sabia, amigo leitor? A bem da verdade, há tempos que não nos falamos com periodicidade, certo? Perdoe-me a minha falha. Sim, amigo, estou me aventurando pelo mundo da fotografia e com ela, o mundo dos eventos. Casamentos, aniversários, formaturas... essas trivialidades únicas (trivial para quem trabalha nelas, únicas para quem as vivencia).

Mas meu rompante de escrever se deu agora, em que eu editava as fotos da festa de sábado passado. Vi a foto de uma adolescente de sorriso contido. Sabe aquele sorriso de boca fechada? Típico dos usuários de aparelhos ortodônticos? Pois é. Um sorriso contido é um pássaro que morre um pouco por dia dentro de uma gaiola. 

Durante a festa passei na mesa em que a moça estava sentada e pedi para tirar uma foto dela com a mãe. Como precavida fotógrafa que sou, tirei duas fotos seguidas (afim de evitar piscadelas). Em ambas ela sorriu sem mostrar os dentes. Detalhe: ela tem a boca grande, com lábios grossos. Não ficou legal. Agradeci e fui saindo, entretanto, não pude me conter e perguntei se ela usava aparelho. Ela afirmou. E me permiti um pouco mais de intimidade: "Você deveria sorrir de boca aberta. O aparelho faz parte dessa fase da sua vida e não adianta querer negar isso." A mãe dela concordou comigo. Virei as costas e fui fotografar outra mesa. 
Ao terminar as fotos e gracejos da mesa, a moça do aparelho me chama: "Moça, tira outra foto minha? Mudei de ideia. Vou sorrir." Fiquei muito feliz. Primeiro, por ela ter se permitido mudar de posicionamento. Segundo, por se lançar ao novo para ver como ficaria. E, por fim, por reconhecer que aquele é o MOMENTO dela, com aparelho. Você sorri e a vida sorri de volta.

Agora, estava justamente olhando as fotos da recepção, bem no início da festa, e ela não sorriu de boca aberta... A menina que registrei na entrada, certamente não é a mesma que saiu de lá.