sábado, 5 de março de 2016

Saraiva

Na loja de calçados:
-Boa noite. Posso ajudar?
-Sim. Eu quero um sapatênis desse aqui, nº42.
-É pra presente?
-Não. É pra mim! Olha pra mim! Tenho cara de quem calça sapatênis 42?

No O Boticário:
-Boa noite. Eu quero uma loção pós-barba.
-É pra presente?
-Não. Pra mim mesmo! Tô pensando em deixar só o cavanhaque, sabe?

Na lanchonete:
-Bom dia. Arruma oito pães de queijo pra mim, por favor?
-Vai comer aqui ou vai levar?
-Vou comer aqui. Oito pães de queijo! Qualquer pessoa come oito pães de queijo sozinha no café!

No rádio:
-A grande maioria da população não aguenta mais tanto descaso..., diz o locutor.
-E a pequena maioria, onde fica? Sim, porque existe maioria grande e maioria pequena!

No trabalho:
-Bom dia! Bom trabalho!
-Ou é bom, ou é trabalho. Se trabalho fosse bom, não nos pagariam para fazê-lo.

No restaurante, almoçando com uma amiga:
-Uma porção de Ribs For Two, por favor.
-É pra trazer dois pratos?
-Não. Somos duas pessoas, o prato se chama Ribs FOR TWO e vamos comer juntas num prato só!


Escolhas

Todos têm um talento. Alguns são entusiastas da música, outros das artes plásticas, alguns cozinham bem, outros escrevem. Bem, o meu dom é sempre fazer a escolha errada. É incrível, mas em toda oportunidade em que eu tenho uma ou mais opções, fatalmente acontece: eu escolho a errada. 

Comecemos quando o dia amanhece e eu tenho de sair da cama. Como durmo sozinha numa cama de casal, posso me orgulhar em dizer que os dois lados da cama são meus. Como não tenho uma rotina, tem dia que me levanto pelo lado direito da cama, tem dia, pelo lado esquerdo. Mas essa escolha, ainda inebriada pelo sono matutino de quem levanta às 5h50, vem sempre acompanhada da variável o lado que o chinelo está. Obviamente, se meu chinelo estiver do lado direito da cama, involuntariamente escolherei acordar pelo lado esquerdo.

Também tenho problemas quando vou escolher a roupa para vestir. Quando está chovendo, pego uma rasteirinha. Quando está calor, uma blusa de manga comprida. Quando está frio, saio de saia. Enfim... Escolhas erradas... sempre!

Mas o que sou campeã mesmo - e que a propósito me motivou a escrever esse texto - são as escolhas no trânsito. Se onde Midas colocava o dedo virava ouro, onde eu coloco as rodas do meu carro vira merda. Se há duas fileiras de carros, exatamente do mesmo comprimento e ao me aproximar resolvo me juntar a uma delas, basta isso para que a que eu não escolhi comece a andar. E se, porventura, eu ligar a seta e mudar de lado, a que eu estava anteriormente começa a fluir como carros com batedores. Buracos, motoristas mal-educados, setas de outros carros que não funcionam, carros quebrados, caminhões vagarosos, toda a sorte (ou melhor, azar) de coisas ruins do trânsito se instalam à minha frente. Como se não bastasse, vejo a fila ao lado passar, passar e passar... como se me desse tchauzinho e dissesse "tchau, otária!". Fico aqui pensando que tipo de otária sou eu, que prefere se aglutinar a um amontoado de carros, sentir o sangue ferver na cara a cada cinco quadras, xingar pessoas e mães de pessoas que nunca viu na vida. É mais uma das escolhas erradas que faço. 

Escolhi fazer jornalismo. Escolhi trabalhar num banco. Não escolhi ter um filho, mas escolhi não usar camisinha. Escolhi gostar de caras que não gostam de mim e escolhi não gostar dos que gostaram. Ô, talento infeliz!

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A redenção do álcool

-Oi, sumida! Tudo jóia?
-Tudo. E você?
-É impressão minha ou você engordou um pouquinho?
-Sim, engordei uns seis quilos.


Esse diálogo foi travado entre mim e o marido de uma amiga. Para a maioria das mulheres seria motivo de ódio e tristeza alternadamente, mas para mim, essa situação - que é relativamente nova - não me incomoda (muito). Na verdade, não me incomodaria nada se a gordura recém-adquirida não se concentrasse toda na barriga. Até que uns seis quilinhos me fariam bem, se quatro deles não fossem responsáveis por aumentar meu trem de pouso abdominal substancialmente. Sim, por que eu não tenho pneuzinho, eu tenho o Boneco Michelin habitando dentro de mim e não há regime exorcista que o tire!


Deixemos essa nova condição obesa para lá e voltemos ao assunto que eu queria falar de verdade. O mercado precisa vender seus produtos, certo? E para isso, ele lança mão de diversos artifícios do mais apurado marketing para nos convencer de que precisamos mais do que tudo daquilo que estão nos vendendo. Nos deixam sem saber como nossos antepassados sobreviveram sem aquilo e não nos permitem imaginar como será nossa vida de agora em diante sem o tal produto. Marketing é fabuloso! Nessa onda, gostaria de chamar a atenção para duas coisas antagônicas que o marketing conseguiu unir: esporte e cerveja.

Ano que vem teremos Olimpíadas (desastrosa como a Copa? Não sei.) no Brasil. Reportagens sobre modalidades esportivas saltitam a todo instante em nossas tevês. O futebol já não é tanto o centro das atenções. Mas o nosso país adora uma cerveja! E a nossa cervejinha vai bem com uma picanha, com uma feijoada, petisquinhos, assistindo a uma partida de futebol e tudo isso que já estamos habituados a ver nos comerciais. Bota uma mulher pelada no meio, então, que fica tudo certo. Pois bem, esse é o quadro: homem barrigudinho, tomando cerveja, comendo, assistindo futebol, passa uma gostosa e ele faz piadinha... pode botar uma praia no meio pra dar um efeito e voilá! Está pronta nossa cultura!

Só que a Skol teve uma ousadia, nos convenceu que atletas (mesmo que ocasionais) podem, sim, consumir cerveja e continuar esbeltos. A Skol Ultra possui 25% a menos de caloria que as demais cervejas pilsen. E, pasmem, menos da metade que kcal que a Caracu. Agora, senhores e senhoras, eu posso continuar tomando cerveja sem culpa, mesmo depois de correr ou pedalar quilômetros. Meus pecados foram perdoados. Cerveja não é mais sinônimo de pessoas desleixadas, que não estão nem aí para o físico. Cerveja é saúde, minha gente! 

Assim, retomo ao marido da minha amiga. Se estou assim hoje, com seis quilos a mais, é que me faltava uma cerveja de baixa caloria na minha vida, igual à Skol Ultra que tivesse tudo a ver com prática esportiva. Hoje mesmo sucumbi à indução marketeira e comprei a minha primeira Skol Ultra. A contragosto permaneci inerte na cama assistindo seriado, porque o que eu queria mesmo era sair dali e pular corda ou pedalar até o suor escorrer. Iiiiissssaaaa!!!


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Por favor, não enfie a mão no saco!

Não gosto de reclamar em restaurantes. Tenho sempre a impressão que alguém vai me sabotar com uma bela cusparada na minha comida. Todavia, não há trollagem maior do que aquela que a gente vê ao vivo e à cores.

Eu compro pão em uma padaria cujos atendentes são muito educados e estão sempre de bom humor - talvez esse seja o motivo de eu ainda preferir comprar lá. As quitandas não guardam nada de excepcional e o preço é salgado, entretanto, o "bom dia" entusiasmado e o "tenha um excelente dia" ao sair, de certa forma me motivam. Seria corriqueira a situação se eu não travasse uma briga comigo todos os dias quando vejo o bendito homem enfiar a mão no saco! Sim! Aquele mesmo saco que em segundos abrigará meus pãezinhos franceses é primeiramente batizado com a mão do atendente que insiste em abri-lo assim antes de soltar os pães - pegos com um pegador - lá dentro.

Ora! Se ele já pôs a mão lá dentro mesmo, o que o impediria de pegar meus (argh!) pães com ela também? Para que a formalidade de um pegador? Seria como dizer que alguém que já deu o cu ainda é virgem! Perdoe-me a apelação, mas daí você tira uma base dos meus pensamentos e do meu olhar enquanto o atendente separa meu café da manhã.

Claro que já pensei em falar para ele! Mas lhe juro que não sei qual abordagem tomar. Pode ser que depois de chamar-lhes a atenção para a discrepância eu não tenha mais coragem de comprar lá. Então, não terei mais meus "bons dias", cada vez mais raros no comércio.

Lembro-me uma vez, quando fui a um pit-dog e o rapaz abriu o saquinho com a mão antes de montar meu sanduíche. Ao ver aquilo, pedi que ele pegasse outro saquinho e o abrisse com o pegador. O menino me lançou um olhar tão aborrecido e demonstrou-se tão aperreado de ter que abrir o negócio de forma não habitual, que fiquei com medo de consumir o tal lanche! Cuspir nele eu sei que ele não cuspiu, mas se existe mau-olhado no mundo... ai, papai!

Bem, mas voltando à padaria do meu bairro. Convido você, amigo leitor, a fazer um passeio descompromissado comigo até a minha panificadora e conferir com seus próprios olhos a cena. Talvez você saiba me dizer de que forma eu devo dizer a ele para não enfiar a mão no saco. Entretanto, tenho medo que depois disso, meu carismático atendente comece a abrir o saquinho de papel com um belo e forte sopro.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Atrás do próprio rabo

Quem nunca se divertiu observando um cachorro girar e girar correndo atrás do próprio rabo? Pois, olha, não tem nada de divertido nisso... ao menos para o cachorro, não.

Tenho me sentido meio cadela ultimamente. Saio obstinada atrás dos meus objetivos, mas não compreendo a razão, não consigo alcançá-los. Faço um esforço danado durante todo o dia, para cumprir alguns afazeres, entretanto sinto que aqueles que eu gostaria ou deveria mesmo realizar, não os realizei.

A frustração vem do fato de estar sempre apagando incêndios, sem tempo para construir nada. Sem um tempo só meu, ao qual eu não tenha que, por obrigações morais, sociais ou afetivas, dedicá-los a amigos, filho, pais, parentes, namorado, colegas, peixes, coelhos, casa, carro, etc.

É isso! Plantamos coisas demais e depois nos falta tempo para as colheitas que desejamos. Quero ter um quintal lindo, uma casa impecável, um filho educado, um namorado presente, meus pais próximos a mim, fazer meu trabalho corretamente, trabalhar com fotografia, fazer álbuns artesanais, escrever, ler, nadar, correr, pedalar, criar animaizinhos, sair com os amigos... Contudo, como já diz o ditado, quem tudo quer, nada tem. E fico assim, correndo atrás do meu rabo, pedindo a Deus que o dia tivesse seis horinhas a mais.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Antes só do que mal gramaticada


Conversava hoje com uma amiga e trocávamos situações bizarras de redes sociais envolvendo rapazes. Uhum, rapazes, falamos, sim, sobre vocês... Às vezes, bem... mas na maioria delas, falamos mal mesmo. Nos queixamos do quanto vocês andam acomodados, de que não se fazem mais homens como antigamente e da forma como vêm tratando as mulheres. Mas esse assunto fica para outra hora.

As redes sociais nos aproximam em alguns aspectos e nos distanciam em outros. Por exemplo, quando leio um erro grotesco de português dou um salto para trás - literalmente. E olha que são muito frequentes! Antigamente as pessoas se casavam sem saber como o outro escrevia. Hoje a nossa ortografia é nosso cartão de visita. 

Um "o que tá fazendo de bom", ou aquele "mim" antes do verbo, ou vírgulas engolidas - interrogações eu até relevo, pois eu mesmo engulo algumas... São coisinhas que me deixam levemente descrente em uma conversa. Mas há situações mais radicais:


e ai gata
vc sumiu


não, to sempre por aqui
se não estiver, pode deixar mensagem no inbox que depois eu respondo

blz
qual a sua idade


por acaso vc é recenseador do IBGE para querer saber minha idade?
que indelicadeza!

foi maus...
qual o seu zap zap


francamente? podemos parar de conversar por aqui
não converso com quem fala "zap zap"
é ridículo!


Essa situação foi descrita pela minha amiga hoje. Mas eu também tenho minhas desventuras pelo mundo das redes sociais. Tipo essa:



Sim, o diálogo se resumiu a isso. Desconfio que esse nobre rapaz tenha aparecido, assim, após nove meses de hiato, só para fazer uma pesquisa. Claro! Porque só pode ser algum tipo de atualização que ele faz com os contatos do Whatsapp de vez em quando! Deu vontade de continuar a conversa... e se tivesse prosseguido, seria mais ou menos assim:

Era só isso que você queria saber? Se eu estou solteira ou se casei? Não vai dar em cima de mim? Não vai me convidar pra sair? Só queria mesmo saber se casei?! Não! Não casei! E esse "tá certo"?Estou certa em ainda não ter me casado, é isso? Ainda faço parte do time das solteiras, coleguinha! Por que? Queria saber onde aluguei meu vestido de noiva? Ou qual buffet está mais barato? Ou simplesmente atualizar a sua agenda? Saber se já poderia excluir meu número? Pois lhe digo: pode excluir, sim, por favor. 

EPÍLOGO




segunda-feira, 6 de abril de 2015

Idiota no trânsito (e em qualquer lugar)

Frequentemente me sinto uma idiota no trânsito. Mas hoje quero falar das vezes que passo por idiota ao volante, simplesmente por me deixar levar pelos meus impulsos. Impulsos esses que já me fizeram fazer muita besteira na vida. 
(Nota mental: aprender a lidar com impulsos.)
A situação que me constrange mais no trânsito é quando alguém está dirigindo pachorrentamente à minha frente, como se o dia dele tivesse mais horas que o meu, e que, em algumas situações, eu pisco o farol para ele sair da minha frente, ou acelero forte meio que para dizer "se você não tem pressa, eu tenho". Daí, acontece que ultrapasso o tal carro lerdo, olho com cara de poucos amigos para o motorista - um bossal que não está nem ligando para a opinião alheia - e sigo adiante... acelerando envenenadamente... até que... surge um semáforo fechado. Putz!
O bossal em seu carro bossal para ao meu lado. 
De que adiantou tanta energia gasta, tanto esbravejamento, tantos pensamentos ruins? Sou mesmo uma idiota, admito!

Na vida também cometo cometia essas idiotices. Já corri atrás de coisas inúteis e depois que as alcancei tive a mesma sensação de babaquice de quando o carro lento se encosta ao lado do meu envenenado. Podia correr e enumerar várias delas, mas acho que não quero mais correr... prefiro andar lentamente, porque, afinal, os lentos também chegam.

terça-feira, 31 de março de 2015

Ente, pra quê te quero?

Um colega meu sempre dizia que tudo que termina em ente é ruim ou dá trabalho. Aí começava: gerente, cliente, parente... Entusiasmada com o seu bom humor, eu continuava a lista: paciente, demente, dor de dente, serpente, reincidente, absorvente, doente, cadente, oponente... Sabemos que há inúmeras palavras que caracterizariam essa regra. Todavia, hoje vim falar de uma em especial: crente.

Perdoem-me meus amigos evangélicos, vocês sabem que eu os amo demais, mas há uns tipos de crente que têm o dom. O dom de ser inconveniente. É preciso falar de Jesus? Sim, é! Ele está voltando? Sim, está! Só que eu peço uma coisa, uma coisinha só, bem pititiquinha... Não me evangelize domingo à tarde depois do almoço. (suspiro)

Domingo é aquele dia preguiçoso, né? Em que deixamos o ócio tomar conta de nós. Ao menos, eu não me sinto obrigada a ser produtiva no domingo. Pois bem. Meu filho e eu saímos para almoçar. Comi como uma clériga, tomei minha cervejinha, um docinho pra rebater e zarpamos para casa. Meu filho foi logo tomando seu posto diante da tevê e eu, no quarto, tratei de tirar aquela roupa quente e ficar como vim ao mundo... estirada na cama... olhinhos fechados até o soninho de domingo chegar... Morpheu e eu já estávamos nos flertando... quando abruptamente (olha o ente aí de novo!), insanamente o interfone toca! 

Peço a Morpheu que me espere, vou à cozinha atender ao bendito interfone, com a educação que me é habitual ao acordar:
_Hum... Quem é?
_A senhora pode vir aqui no portão um minutinho?
_Quem quer falar comigo?
_A sua vizinha.
Pensei o que raios a vizinha poderia querer comigo àquela hora. Entretanto, cogitei a possibilidade de ela estar precisando de ajuda.
_Aguarda um pouquinho.

Volto para o quarto apressada para vestir a roupa e abrir o portão para a vizinha necessitada. Talvez alguma emergência na casa dela ou algum aviso importante. Recomposta como manda a civilização, fui abrir o portão, encontro uma mocinha de uns 16 anos com outra de mesma idade. Se era alguma vizinha deveria ser de várias casas para cima ou para baixo no quarteirão, porque nunca a havia visto antes.

_Boa tarde! Tudo bem? Estamos passando aqui pra deixar esse folheto com a senhora. A senhora é evangélica?
_Não... - respondo desolada ao perceber do que se tratava.
_Então, a senhora precisa se preparar porque Jesus está voltando!

Você, que está aí do outro lado me lendo, certamente achou um pouco de graça não é mesmo? Consegue imaginar a minha cara? Consegue imaginar qual foi a minha reação? O que se passou pela minha mente? Pois vou lhe dizer:

_Olha aqui sua pirralha vadia! Isso são horas de amolar as pessoas em suas casas?!! Eu não quero saber quem tá voltando! Não sabia nem que tinha ido! Eu só sei que eu estava de boa, pelada na minha cama, começando a dormir, depois de ter comido e bebido horrores e você me atrapalhou! Sabe pra quê serve caixinha de correio? Para colocar papéis como esse que você fez questão que eu me vestisse e viesse até aqui abrir o portão só para pegar! Pois olhe o que eu faço com esse papel! (rasgando) E interfone? Sabia  que você poderia ter falado comigo lá de dentro mesmo?! Seus outros irmãos em Cristo fazem isso: colocam os papéis na caixa de correio e falam comigo pelo interfone! Por que? Eu quero saber, por quê você fez tanta questão da minha presença aqui, menina?!

Isso foi o que se passou pela minha mente.

_Tá certo. Obrigada. Boa tarde pra vocês. 

Isso foi o que eu respondi, levando o papel para dentro de casa.

Compreendam que não estou falando mal de quem é evangélico, muito menos da arte de evangelizar pessoas. A minha indignação vem do horário e do modo como fui abordada. É preciso ter sapiência para falar com as pessoas. Eu mesma reconheço que me faltam quilos - talvez até toneladas - delas às vezes. Mas sorte minha que falo pra dentro a maioria delas. Se algumas pessoas me julgam pelo que digo/escrevo, imagina se soubessem o que penso!

domingo, 15 de março de 2015

Good job, girl!

Sabe aqueles desenhos animados em que a personagem anda por uma estrada com dezenas de placas dizendo "não vá por aí"? Tipo, cuidado, rua sem saída, volte, eu avisei... E mesmo assim a personagem insiste em ir. Costumo dizer que é o antagonismo que move os desenhos animados, eles são permeados de coisas e situações ilógicas.

Senti-me assim hoje por um breve momento. Permita-me um breve retrospecto. Desde criança tive aptidão para a escrita, gostava de ler e inventar histórias. Quando eu era adolescente tinha muita facilidade para falar em público e apresentar pecinhas teatrais na escola. Pedi um violão de presente de 15 anos. Sempre manuseei qualquer tipo de ferramenta com destreza. Enfim, ao longo desses 29 anos tratei de aprender de tudo um pouco - dentro do que me interessa, é claro, porque sou uma negação em moda, por exemplo. E, assim, fui me tornando uma generalista. Essas pessoas que sabem de tudo um pouco e não se especializam em nada - e me sinto confortável em dizer que o jornalismo é assim também, apesar de nunca tê-lo exercido, sinto-me jornalista em minhas atitudes e posturas.

Enfim, estávamos Pedro e eu na feira hoje e havia um cara dando uma espécie de oficina de modelagem em argila. Sentamo-nos à mesa e fomos brincar. Meu filho fez cobras, xícaras, jacarés, patinhos, sapos, enquanto eu me concentrava em um coelho e um abacaxi. Fi-los com muito esmero, com cuidado no acabamento, na proporção e tudo o mais. Um momento de total relaxamento. Não demorou muito e o instrutor veio falar comigo: "Nossa, ficaram ótimos! Você leva muito jeito pra isso! Já havia feito antes?" Respondi com um pouco de vergonha que não. Nunca havia botado as mãos em argila e que levar meu filho ali foi um excelente pretexto para experimentar.

Seria uma situação trivial, se não fossem outros três elogios além desse que ouvi esse ano. Quando resolvi aprender cartonagem, a moça que estava me ensinando também disse que tenho muita habilidade nas mãos e que pouquíssimas alunas dela eram tão desenvoltas com papéis. Justifiquei que era porque eu gostava muito de brincar com papéis e colagem na infância. 

Algumas semanas depois, o maestro do coral do qual eu participo chamou-me a um canto  e disse que eu deveria estudar música, que sou afinada e tenho uma voz bonita e que seria ótimo se eu pudesse me aprimorar. Agradeci-o e confesso que fiquei vários dias com a vaidade aflorada, por ter sido elogiada por alguém como ele.

Acho que já mencionei aqui, e além de mãe, bancária, jornalista (por formação) e blogueira, também trabalho com fotografia. Entre uma foto ou outra, alguém também elogia meus cliques. Quando alguém esbarra com alguma lorota legal, também ouço um "puxa, você escreve bem". Quando distribuo as verduras e frutas que cultivo no meu quintal, me perguntam como consigo plantar e produzir coisas com tão boa qualidade.

Nobre leitor, talvez eu possa parecer uma pessoa pouco modesta e um tanto orgulhosa se me julgar pelos parágrafos acima, principalmente se você for novo por aqui. Todavia, a grande questão do meu texto vem agora, o motivo de eu tê-lo escrito e a dúvida existencial que me abate nesse momento é que NINGUÉM NUNCA BATEU NO MEU OMBRO E DISSE "VOCÊ É UMA EXCELENTE BANCÁRIA". Compreende agora? As coisas que faço por prazer me rendem louros e reconhecimento. Já no meu trabalho formal, em que trabalharei pelos próximos 21 anos, sou simplesmente medíocre, ou seja, na média. Não sobressaio nas atividades bancárias. Faço-as corretamente, mas não há esmero da minha parte, ou melhor, diria que no meu casamento com o banco há uma relação de interesses e não de amor. Sou casada com o banco, mas tenho amantes a rodo! E eles me mantém jovem, disposta e feliz.

Curioso isso, não é mesmo? Todas as placas indicam que não devo trilhar por ali, entretanto sou impelida pelo antagonismo clássico e paradoxal dos desenhos animados a permanecer na mesma rota. Mas calma, eu não vejo isso como uma coisa ruim... É estranha, mas não é ruim! É como se eu tivesse uma barreira para transpor todos os dias e isso me renova. Talvez se eu trabalhasse com algo que me dá prazer, aquilo deixasse de ser bom, entende? Será que um cara que desenvolve jogos de videogame gosta de jogá-lo aos finais de semana?

domingo, 8 de março de 2015

Meu adorável Dono de Estabelecimento Comercial

Quando Deus me projetou ele devia estar muito bem-humorado e pensou "Vou experimentar algo diferente hoje, vou fazer uma pessoa meio fora dos padrões pra ver no que dá." E eis que eu vim ao mundo: com cabelo liso e ideias enroladas dentro da cabeça.
Hoje quero falar de uma, entre muitas coisas, que acho linda. Já falei da minha queda por homens de All Star e de ternos esvoaçantes em motocicletas, mas essa semana me dei conta de uma outra coisa que também sempre me chamou a atenção, entretanto nunca havia lhe dado o devido valor. Trata-se nada mais, nada menos que Donos de Estabelecimentos Comerciais.

Quando adentramos em uma loja, normalmente somos atendidos por vendedores descompromissados, sem motivação e que, consequentemente, me fazem sair da loja menos interessada em determinado produto do que quando entrei. Todavia, às vezes, tenho a tremenda sorte de ser atendida por quem realmente entende do assunto e que quer (muito) que eu compre aquele produto. Por exemplo, quinta-feira passada entrei em uma loja de brinquedos para comprar um óculos de natação e tamanha foi minha surpresa quando passei por um homem que conversava com um cachorro! Sim, um homem de aproximadamente quarenta anos batendo o maior papo com um cãozinho de brinquedo! Fui ao final da loja, peguei os óculos e quando voltei não me contive, tive de conversar com o cachorro também. Aquela prosa entre o sujeito e o robozinho de pelúcia parecia tão interessante que quis participar. Fiz-lhe algumas perguntas, as quais ele respondeu com tanta presteza como nenhum outro cãozinho com quem conversei até hoje havia me respondido. 

Depois de "brincar" um pouco, o homem começou a conversar comigo e me explicar sobre toda essa nova tecnologia de animaizinhos inteligentes robotizados para substituir os bichinhos de estimação da garotada moderna. Nem preciso dizer, que ainda prefiro ter peixinhos à Robo Fishes. Mas a disposição do cavalheiro me atraiu de tal forma que até olhei a mão dele e ao perceber que era casado, voltei novamente a atenção para os brinquedos. Mas confesso que o All Star em seus pés me deixou meio abalada... aliança, Ana Paula! ele usa aliança! Foco no brinquedo! Foco no brinquedo!

Mas o fato é que um atendimento diferenciado faz toda a diferença no momento de atrair a atenção de um cliente, mesmo que em potencial. Até hoje o Spock  não me saiu da cabeça e tenho plena convicção que foi pelo empenho do dono da loja que me atendeu. Outra circunstância em que me senti cativada, dessa vez por uma mulher (que nem faço ideia se usava aliança ou não!), foi quando a dona de uma lanchonete resolveu me dar uma aula sobre a comida que ela vendia. Não que eu seja lá muito interessada em temperos culinários e modos de preparo da massa, contudo, ela poderia somente ter anotado minha pizza de calabresa e falado "próximo". Só que ao optar por me explicar outras coisas das quais eu nem imaginava, ela plantou a sementinha da curiosidade na minha cabeça e sim, amigo leitor, serei obrigada a voltar lá e comer o calzone à moda da casa.

Por essas e outras experiências ainda consigo ter o mínimo de satisfação em ser consumidora. Um dia escreverei uma lorota sobre alguns vendedores que já cruzaram meu caminho e daí vocês verão porque caio de amores quando sou bem atendida. Lembre-me, por favor!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Uva páscoa

Certa vez um colega me disse que não temos consciência da educação que damos aos nossos filhos até que alguém nos dê um feedback, do tipo, "nossa! seu filho é tão educado!". Hoje escrevo o texto para discordar do meu amigo. Sim, eu tenho noção da educação que tenho dado ao meu filho. Olha, é uma árdua tarefa de repetição, viu? Falar todos os dias a mesma coisa, a mesma coisa, a mesma coisa... Mas uma hora, quase que por um passe de mágica, você para de repetir aquilo com o passar dos dias.
-Filho, coloque o copo sobre a pia.
-Filho, onde você colocou o copo?
-Filho, por que esse copo está no sofá?
-Pedro, pegue esse copo e o coloque na pia agora!
-Filho... Ops! Não... nada não... - esse é o momento em que eu vejo que o copo está na pia.
Por essas e por outras eu ainda tenho esperança nos homens. Não há nada que a paciência e a perseverança não possa mudar.
Outra situação lindíssima em que eu pude me ver refletida e contemplei parte da minha obra-prima inacabada foi quando ele espirrou perto de mim:
-Mãe, eu espirrei! Você não vai falar nada, não?!
Tipo, ué, você não vive falando pra eu ser educado e dizer "saúde" quando as pessoas espirram? Prova de que um exemplo vale por mil palavras.
Entretanto a ideia desse texto veio ontem quando ele brincava com dois amiguinhos aqui em casa. Pedro chegou com a mão cheia de uvas passas (tive um namorado que o ensinou a fazer pequenas incursões à geladeira atrás das minhas frutinhas desidratadas):
-Meu filho, mas você pegou minhas uvas passas?!
-Mãe, eu dei um tanto assim pra cada um dos meus amiguinhos.
Na hora fiquei contrariada porque eu as estava guardando para uma farofa, mas depois me dei conta do tremendo salto na educação do meu filho. Atualmente, as crianças não dividem coisas. Elas falam umas para as outras "fala pra sua mãe/pai comprar pra você", sem maldade... é o hábito... tipo, na escola, o coleguinha não pede um pouquinho do lanche do outro... ele chega em casa e pede pra mãe comprar um igual. São os valores modernos. Pois bem, meu filho dividiu sua "uva páscoa"* com os amigos e, para um filho único, acho sinceramente que é um excelente começo.
Às vezes fico meio injuriada com esse negócio de ser mãe. Com as perguntas difíceis que temos de responder de uma forma fácil (como são feitos os desenhos animados, como eles chegam na nossa casa e por que não podemos pegar essas tais ondas eletromagnéticas?) , da atenção requisitada a todo momento (agora mesmo tive de gritar "estou escrevendo, filho! não vou aí agora, não!"), da sessão de cinema com os amigos que perdi ontem porque tinha amiguinhos dele aqui, das inúmeras vezes que deixei de fazer alguma coisa porque não tinha com quem deixá-lo, da atenção a ser dispendida (como agora de novo, "mamãe, sai desse computador!"). Confesso que sou humana e, por essas e outras, a maternidade exige muito de mim. Todavia, e sempre há um todavia, acompanhar o crescimento do meu filho e a formação do seu caráter e da sua capacidade intelectual é um fenômeno digno de dar graças a Deus. Que Ele me proporcione ainda muitos anos - sabedoria e sanidade - para poder estar com meu filho e cumprir com maestria esse papel que a mim foi atribuído.

uva páscoa*: 
-É uva passa, filho. 
-Mas por que ela chama uva passa? 
(Ana Paula pensando: Véi, véi, véééii... Por que o menino simplesmente não aceita o que eu digo? A quem ele puxou com esses questionamentos todos? Como a minha mãe sofreu comigo, Jesus amado! Num vou explicar isso para ele agora, porque eu sei que não vai parar por aí. Outra hora eu corrijo isso...)
-Pode falar uva páscoa por enquanto, filho...

Antes que você me julgue e condene a minha decisão, quero só esclarecer que para a mente frenética do meu filho respostas simples como "é porque ela passou da hora de colher" ou "porque as frutas quando ficam secas são chamadas de passas" não seriam satisfatórias. No atual grau de curiosidade dele, a conversa terminaria em outra pergunta: "então, a minha bisavó também é passa?"

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Se a vida lhe der limões...

O prático - Faço uma limonada.
O revoltado - Enfia esses limões no seu cu.
O agradecido - Ó, puxa! Limões! Eu adoro limões! Obrigada!
O humilde - Não precisava... Que lindos limões...
O conformado - Ok. Dê-me cá os limões.
O inconformado - Eu não queria limões! Nunca pedi limões! Queria mesmo era laranja-lima!

Mas se por acaso a vida resolve lhe tomar os limões de volta:

O prático - Já fiz a limonada e já bebi.
O revoltado - Não precisa levar tão a sério o que eu disse...
O agradecido - Ah, mas eu havia me apegado tanto a eles...
O humilde - Certamente eles estarão melhor com você.
O conformado - Tudo bem, pode levar os limões.
O inconformado - Agora que me acostumei a ter limões, vem você e os toma de mim?! Ah, vá!

(Post em construção...)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Lições da escola

Ainda sobre material escolar, gostaria de compartilhar com vocês mais um recorte da minha infância pobre. Antes de começar, quero esclarecer que quando conto episódios tais como o de hoje, a intenção não é outra senão demonstrar a vocês o quanto sou grata pela educação que tive. Fui criada com muito pouco e, por isso, hoje sei valorizar tudo que tenho.

Pois bem, a passagem da qual me recordei enquanto encapava os livros do meu pequeno é que quando eu comecei a estudar, ganhávamos do Governo um caderninho, um lápis e uma borracha. O caderninho era pequeno e de capa mole, com o  Hino Nacional na contra-capa. Mas para nós, era o máximo ganhar um caderno, um mimo. Fazíamos margem nele com caneta vermelha e o encapávamos. Aí que entra a parte mais bacana. O senhor, nobre leitor, acha que nós - estudantes de escola pública, no início dos anos 90, leia-se início da Era Collor - dispúnhamos de quaisquer recursos para comprar plástico para encapar livros e cadernos? Chegava ser heresia cogitar uma asneira dessas! Plástico colante, então! era coisa de menino de escola particular! Burguesinho!

Nossos livros eram personalizados: sacolinhas de supermercado, saquinhos de açúcar, lona, jornais, papel de pão... Certa vez, minha mãe encapou um caderninho meu com um retalho que estava sobrando em seus guardados. Imagine o frisson que não causei quando cheguei com um "caderno revestido em tecido", para os dias atuais. Teve também a vez que meu padrinho foi representante
comercial da Garoto e ele me deu um rolinho do papel amarelo escrito Garoto em vermelho que usavam para forrar as gôndolas nos supermercados. Uau!!! Meus livros eram únicos na escola todinha! Ninguém tinha um livro com a capa igual a minha! Vergonha? Não, nunca tive. Éramos todos pobres. Alguns até mais do que eu... Não tinha porque me envergonhar. A precariedade era tanta onde estudei, que alguns pais colocavam os filhos em turnos alternados para que usassem a mesma camiseta de uniforme - que era apenas uma para os dois irmãos.

Logo, aprendi desde cedo a valorizar o que tenho e ontem, ao arrumar o material do meu filho, que estuda em escola particular e que, portanto, não ganha cadernos, tampouco livros, sequer um lápis do Governo, percebi que isso fará falta a ele um dia. O "não possuir" coisas ajuda a moldar a índole e o caráter das pessoas e sei que meu filho crescerá sem essa experiência. E por mais que tentemos educar, explicar e ensinar, não há nada como a vivência para gravar aprendizado no coração das pessoas.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Ajustando as margens

Neste exato momento em que escrevo esse texto, minha impressora está a imprimir as margens no caderno de desenho do meu filho. Sim. Ano passado tive a brilhante ideia de desencadernar o caderno e imprimir as margens nas folhas, em vez de ficar fazendo traços com caneta e régua.

Fico ligeiramente orgulhosa de mim com esse arranjo produtivo, todavia nem tudo são flores no mundo das ideias (e em outros mundos também). Tive de fazer 12 experimentos até chegar ao resultado em que eu pretendia, entre espessura, cor, alinhamento e distância. Fiquei nervosa, gritei com o computador, gritei com o Pedro, quis largar tudo e fazer à mão. Mas, em vez disso, fui na cozinha e tomei um copo d'água... três respirações profundas e voilá! A resposta para o que não estava dando certo apareceu! E nesse instante, as folhas estão sendo impressas com uma velocidade que eu seria incapaz de riscar manualmente.

O bom de envelhecer é tirar lições, sabia? Hoje, tudo que vivencio consigo extrair da situação algum aprendizado. Concluí que se eu tivesse desistido na décima primeira folha, eu não estaria aqui agora escrevendo esse texto e, sim, riscando folhas com uma régua e uma caneta... contrariada da vida... Também concluí que desistir antes de esgotadas todas as possibilidades não é a melhor alternativa. Afinal, eu tinha cem folhas de papel para tentar e tentar e tentar. E se não desse certo após as cem? Aí eu teria de comprar outro caderno.

Opa! Tenho de terminar por aqui. A impressora já fez o meu trabalho. Foi difícil até acertar as configurações, mas depois disso...

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Por mais prosa em 2015

Oi, blog!

É bom estar de volta, mesmo que seja só de passagem, para lhe desejar um Feliz Ano Novo.
Por falar em ano novo, neste que passou aconteceu algo esquisito, ou melhor, tudo que aconteceu foi esquisito... Acho que por conta disso, não trouxe expectativas para 2015, não fiz as minhas tradições de fim de ano, meus planejamentos, não fiz absolutamente nada! A virada mesmo tentei passar dormindo, mas meu vizinho e seu som estúpido não permitiram. Águas passadas.

Blog, não lhe prometo nada para 2015. Não prometo que escreverei mais textos, que lerei mais livros e nem que serei uma pessoa melhor. Entretanto, tenho uma torcida para esse ano que se inicia. Torço que as pessoas sejam mais presentes umas nas vidas das outras, torço para que elas tenham menos ocupações e mais tempo para o ócio, torço para que elas voltem a ter assunto e conversar entre si, torço para um bug no Whatsapp.

Além da parte financeira, que nunca esteve tão mal desde que eu administro minhas próprias contas, a parte afetiva deixou a desejar. Mais particularmente com relação aos meus amigos. Tenho perdido boas amizades e não tenho conseguido construir novas com a solidez das antigas. Não sei se é porque eu fui alguém mais interessante e agradável do que sou hoje, ou se foram os padrões dos meus amigos que se tornaram rigorosos demais. Também não me preocupo muito com isso. Por falar em preocupação, 2014 também me agraciou com meus primeiros cabelos brancos e não tem sido fácil lidar com a chegada deles. 

Eu disse que não me preocupo, mas lamentar, eu lamento. Sinto muito não ficar mais horas a fio na casa de algum amigo, conversando despreocupadamente. Talvez seja porque as preocupações são tantas que chegam a saltar da cabeça - acredito, mas isso é segredo nosso, que algumas delas saem em forma de cabelos brancos. Todavia, as tarefas e compromissos não nos permitem desligarmos por míseras três horas do mundo lá fora. Por conta disso, 2014 também me brindou com surtos de ansiedade, inúmeras vezes confundidos com algum problema cardíaco. Mas era SÓ ansiedade...

Pessoas ansiosas não conseguem se divertir, porque seu pensamento está sempre no futuro. O presente é um martírio para um pobre ansioso como eu. É nessa hora que entram os amigos. Que conversemos uns com os outros, que tenhamos tempo uns para os outros, que ao sairmos uns com os outros resgatemos a fala, a oralidade, a troca de experiências. Essa é minha torcida para 2015.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Sobre sumatras e homens

Quando meu filho ganhou um dinheiro da avó paterna para adquirir um aquário, confesso que não fiquei muito animada. Mas à medida que fui comprando as coisas e os peixinhos fui me empolgando com a ideia. É legal ouvir o barulho da água caindo da cascatinha ininterruptamente, digo até que é terapêutico. Também gosto de ficar olhando o comportamento dos peixinhos. Confesso que os comparo com pessoas conhecidas: têm aqueles mais bobinhos, os mais agressivos, aqueles que ficam “na dele”, os que só querem saber de comer...

Entretanto, há um que me chama mais a atenção e é sobre ele que quero falar hoje. O sumatra. Não vou perder tempo aqui pesquisando e transcrevendo a sua espécie, características biológicas e físicas, tampouco vou mostrar uma foto dele. Quero apenas descrever o seu comportamento e o que tenho vivido com ele. Digo ele, mas na verdade, são eles, no plural. Vou nominá-los para que você, amigo leitor, não se perca em minha narrativa.

No começo comprei Ichi e Ni. Não se davam muito bem e Ni acabou por assassinar Ichi. Observando que todos no aquário tinham outros amigos da mesma espécie, quis dar nova chance a Ni e comprei San para lhe fazer companhia. Fui pescar e da minha pescaria trouxe dois pequeninos cascudos. Quando os coloquei no aquário, Ni devorou o primeiro vorazmente! Numa só tacada o comeu ali, diante dos meus olhinhos. Fiquei pesarosa por ter retirado o cascudo do rio, onde teria uma vida promissora, para viajar 300 km e morrer pela boca de um sumatra mimado e egocêntrico de aquário. O segundo cascudo desapareceu dias depois. Então, viveram razoavelmente bem por umas duas semanas até que San adoeceu. Um sumatra, custa em média R$ 2,50 e tamanha foi a minha dúvida quando o veterinário me disse que o remédio para curar San custava R$ 7,50! Ora, eu poderia jogar o peixe doente fora e com aquele dinheiro adquiriria três outros! Mas tive pena. Quem sou eu para determinar a duração da vida do peixinho? Fiz minha parte e comprei o remédio. Separei-o dos demais e comecei a tratá-lo. San não nadava e ficava apenas amuado no fundo do recipiente, mas eu insisti. Por 10 dias o mantive isolado e vinha observando melhoras em seu aspecto. Até mesmo ele já se sentia melhor e voltara a nadar com rapidez. Um dia acordei e ele não estava no recipiente. Sua alegria em  se recuperar foi tamanha, que pulou para fora do recipiente direto para as garras da morte. Encontrei-o morto debaixo do rack. Fiquei frustrada (e ainda estou um pouco). Como você se sentiria se tivesse se dedicado à cura de alguém e de repente ela procura a morte – que você a privou. A partir disso começo a me perguntar: eu deveria tê-lo deixado morrer quando adoeceu? De que adiantou tanto esforço para recuperá-lo?

Ni ficou sozinho de novo. E assim permaneceu por muitos dias no aquário. Passei a observá-lo mais e ele parecia não se importar de ficar sozinho. Ele nada rápido, come muito, persegue os outros peixes. Um pequeno encrenqueiro. Enche a boca de ração. Às vezes acho que faz isso só para que os outros não tenham o que comer, mais do que por fome propriamente dita. Tenho tido dúvidas quanto à índole de Ni. Um dia cheguei do trabalho e meu tricogaster azul estava morto. Não vi o crime, mas tenho tudo para acreditar que o sumatra pode ter dado início ao massacre.

Precisava comprovar minha suspeita sobre Ni. Se, de fato, o problema era dele ou da espécie. Comprei Shi, Go e Roku, todos sumatras... Além deles, algumas outras espécies e, em especial, uma dupla de acarás-bandeiras (lindos!). Ao soltá-los no aquário, Ni cumprimentou os três de sua espécie e elegeu algum novo integrante para perseguir. A infelicidade de Ni é que resolveu bater justamente num dos meus favoritos e não tolerei essa sua nova demonstração de prepotência e arrogância. Chega uma hora que, por mais que sejamos apegados a certos peixes e por maior que seja nossa afeição, precisamos dar um basta em suas atitudes. Meu sumatra implicante e briguento foi advertido. Está separado dos demais, dentro de um copo, sem plantas, sem bolhas, sem pedras... Às vezes é preciso perder pra dar valor ao que tem. Acredito que isso não será suficiente para que aprenda a lição, mas foi uma tentativa. Se ao soltá-lo novamente com os demais ele insistir nesse comportamento anti-social, antiquado, antiaglutinante, antipático, anti-romântico, anti-tudo, serei forçada a devolvê-lo para a loja. Tenho dito. (29/10/2014)

Epílogo

Ni ficou isolado por dois dias. Teve seu universo reduzido a 400ml de água, apenas isso. Não comeu. Não teve seu oxigênio renovado. Não conviveu com outros peixes. Minha vontade era de escrever aqui que ele pensou, refletiu sobre suas atitudes e chegou à conclusão que precisaria ser um peixe melhor. Todavia, sou impedida de me expressar assim porque aprendi desde pequenininha na escola que animais são seres irracionais. Portanto, não tenho a audácia de dizer o contrário. Só sei que Ni não corre mais atrás do meu lindo acará e vive pacificamente com os demais. Ultimamente tem sido o líder do quarteto e Shi, Go e Roku o idolatram.(04/11/2014)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Não existimos fora das redes sociais

Já há algum tempo venho desconfiando que as relações humanas andam precárias. Ontem quis tirar a prova e fiquei triste em constatar que é verdade. Retirei a notificação do meu aniversário do Facebook e veja só a minha surpresa: apenas sete amigos se lembraram! Além deles, seis parentes, contando pai e mãe. Bem a que conclusão eu posso chegar? Ou que eu sou uma pessoa não muito querida, ou que todo mundo se apega à memória virtual das redes sociais para se lembrar das pessoas. Prefiro acreditar que seja a segunda. (carinha triste)

Não fiz festa esse ano por falta de motivação, simplesmente as pessoas não comparecem. Você as convida a passar um momento com você e elas não vêm, muitas sequer agradecem o convite. Mas quando acontece, raramente, de as pessoas conseguirem se encontrar, elas não conversam entre si. É sempre mais interessante o que está lá fora, ao alcance das redes. Compreendam que não estou julgando ninguém. Eu mesma me comporto assim. Apenas critico essa nova forma de se relacionar, em que datas de aniversário são esquecidas, ligações telefônicas passaram a ser incômodas e que visitas sem hora marcada é uma falta de educação. 

Essas coisas reforçam meu desejo de me mudar para o interior, sabe? Mas uma cidade pequenininha, em que eu possa ir a qualquer lugar de bicicleta, em que eu passe e pare na porta da casa de alguém e ele esteja sentado no banquinho debaixo da árvore sem fazer nada. Desejo me mudar para um lugar em que esse ritmo frenético e ansioso de uma capital não tenha contaminado as pessoas com seus  compromissos inadiáveis e sua falta de tempo constante. 

Outra característica que venho percebendo - lembre-se que continuo me incluindo nela - é que as pessoas não têm mais assunto entre si, ou seja, quando se encontram para conversar, não sabem sobre o que falar. Aprendemos a compartilhar fotos, vídeos, notícias, charges e perdemos nossa oralidade. O que está em voga é enviar coisas para os outros, é encaminhar. Antigamente, alguém ouvia uma história e a recontava para outra pessoa imprimindo nelas sua entonação, suas emoções, seu modo de enxergar... Hoje basta CTRL+C e depois CTRL+V. Nos trabalhos escolares ninguém lê a Barsa e copia para a folha de papel almaço, a garotada lê a primeira linha da Wikipedia e fala "é isso": copia e cola no Word. 

Confesso que essa evolução (tenho dúvidas sobre o uso dessa palavra) me deixa um pouco incomodada. Ainda sobre o fato de não termos repertório para conversas, digo que o mundo está muito exposto, talvez por isso não nos importemos tanto uns com os outros. Se estou triste, posto no Face que estou triste, se estou comendo, mostro a todos o que estou comendo, se tenho uma opinião posto um texto no meu blog. E assim, as pessoas vão ficando desinteressantes umas para as outras. A vida alheia está ao nosso alcance demais graças às redes sociais. 

Por vezes me pergunto como será a relação dos meus netos com os seus e temo que Aldous Huxley esteja certo. (carinha de espanto)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Insanidade level hard

Eu tenho uma quedinha por surtos. Sou o tipo de pessoa que aguenta muita coisa calada e, talvez por isso, sonho com meus dias de fúria. Agora mesmo estava revendo a cena desse filme aqui,só para, por catarse, me sentir vingada.



No geral não sou vingativa, entretanto, às vezes, tenho vontade de fazer maldades insanas. Daquelas maldades tipo cortar a cueca que chegou suja de batom e aproveitar que já estou com a tesoura na mão e picotar as mangas das camisas, as camisetas de marca, as calças, bermudas, meias, gravatas... tudo! Deixá-lo com uma mão na frente e outra atrás... e, se algo mais aparecer sujo de batom, também vai para o espaço, seja o pescoço, o peito ou o pinto. 

Outra situação hipotética em que traço todo um roteiro de descarga emocional vingativa é quando alguém fecha meu carro no estacionamento. Por duas vezes deixei recadinhos escritos com batom no vidro do carro depois de manobrar meu carro zilhões de vezes até conseguir tirá-lo do local. Recados leves do tipo "evite fechar as pessoas, ok?" ou "fechar o carro dos outros não é legal". Todavia, o meu mais profundo desejo é de arranhar com um prego o carro do Indivíduo Sacana e para cada arranhão eu escreveria na lataria do carro um xingamento e uma frase moralista com pincel atômico preto. "Da próxima vez, enfia esse carro no seu cu, seu merda!!" Sim, e colocaria todas as vírgulas e acentos para ele ver que ser trata de uma pessoa com boa educação... no seu dia de surto, mas com boa educação.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Clarissa - Epílogo

"Querido Antonio,

Quatro longas semanas se passaram desde que vim embora. Sua presença foi muito marcante em meus dias e ainda tenho a impressão de ouvir sua voz quando ando pelas ruas. Aqui no Brasil tudo permaneceu como eu deixei e a sensação que tenho é que o tempo parou quando parti. Enfim, sensações...

Ontem fui visitar uma amiga, a Ana Paula, aquela jornalista que lhe falei, lembra? Que também é fotógrafa e tem um blog de crônicas. Ela tem um filhinho adorável e agora, por hobby, dedica horas do seus dias a cultivar plantinhas no seu quintal. Na nossa conversa ela me contou sobre sua experiência em plantar girassóis. Comprou as sementes, fez covas rasas, plantou-as com a ajuda do Pedrinho e esperou para ver suas lindas flores amarelas nascerem. Mas elas não nasceram.

Quando foi verificar o que havia se sucedido, percebeu que os pássaros descobriram a farta comida guardada debaixo de uma fina camada de terra e comeram todas as sementes. Contudo, minha amiga não se abateu e plantou seus girassóis mais uma vez, agora numa cova mais profunda. Ainda assim os pássaros – já espertos –  continuaram a comê-las. Enquanto conversávamos no quintal, ela estava fazendo sua terceira tentativa. Colocaria algo para espantar as aves dessa vez. Como bem a conheço, sei que não desistirá enquanto não vir ao menos um pé de girassol nascer em seu terreiro.

Por que lhe contei todo esse enredo? Porque quero que você me diga o quanto somos capazes de interferir no nosso destino. O quão poderosos somos para tomar nossas decisões e quanto elas podem impactar no nosso futuro. Tudo já está escrito ou somos nós quem escrevemos? Na verdade, não quero que você me responda. Nem poderia... São apenas perguntinhas frenéticas que pululam na minha cabeça desde que voltei para a minha realidade aqui no Brasil.

A minha tendência, Antonio, é acreditar que o que tem de acontecer, vai acontecer. Pode até ser que graças a uma decisão ou outra as coisas tomem um rumo diferente por algum momento, mas o que tiver de ser, será. Se já estiver pré-disposto que minha amiga colherá seus girassóis, poderão vir pássaros de todos os lados do mundo que não conseguirão detê-los... algum girassol nascerá. Todavia, se for o oposto, se a sina daquele quintal for nunca ter um girassol, a Ana Paula tentará, tentará e tentará inúmeras vezes e será tudo em vão. Mas é muito importante que ela tenha tentado. Às vezes, o percurso até o destino é mais gratificante que ele próprio. Outra dúvida que me ocorre: qual seria o momento certo de parar? Como saberíamos se o destino foi cumprido ou não? Acho que não sabemos ao certo, não é mesmo?! 

Só queria que soubesse que você foi uma linda parte do meu percurso até o meu destino, mas ainda não cheguei ao final. Isso é o que o meu coração me diz e essa tem sido a única forma de me balizar entre decisões: ouvindo meu coração. Então, com toda amizade e cumplicidade que conquistamos, peço licença a você para sair da sua vida. Não retornarei mais à Europa. Se, por algum momento, te magoei, perdão. Obrigada pelo sonho que foi conviver ao seu lado. Agora vou sonhar por aqui.

Com carinho,

Clarissa."

Clarissa - Capítulo V: O Reencontro

Na semana em que completara 30 anos, Clarissa se deu um presente especial. Diante de tantas mudanças no visual e nas atitudes, sentiu a necessidade de mudar de ares. Resolveu ir para a Europa. Sua escola de francês tinha um programa de intercâmbio interessante e resolveu se inscrever para uma temporada de seis meses. Fez aqueles acordos trabalhistas escusos para pegar o FGTS e Seguro Desemprego e tratou de tirar seu passaporte. No dia da entrevista na Polícia Federal, quando a pessoa lhe perguntou por que estava indo para a Europa, sentiu o chão abrindo sob os seus pés e quis responder “Porque preciso disso. Porque preciso me reencontrar, sabe? Tive uma paixão não correspondida que me deixou muito entristecida e por causa dela sofri um acidente e por causa dela estou descobrindo coisas maravilhosas. E agora, senti que era hora de descobrir coisas maravilhosas fora do Brasil, por isso quero ir para a Europa.”  Todavia, na mesma velocidade em que o chão se abriu, ele se fechou e ela respondeu apenas “Gostaria de aprimorar meu francês.”

Clarisse partiu rumo ao novo. Ficaria hospedada na casa de uma família da França e estudaria na escola conveniada do seu curso no Brasil. Tinha intenções de conhecer o máximo que o tempo livre e o dinheiro permitisse. Faria tudo sozinha, porque desta forma andava melhor. Chegaria no meio da primavera e, assim, permaneceria por lá também durante o verão e o outono. A nossa protagonista estava contente! Num estado tal de felicidade que nem por um momento precisou desviar pensamentos para não pensar nele.

Ele, a propósito, chama-se Armando. Desculpe-me apresentá-lo somente agora, mas é que a este pobre narrador onisciente em terceira pessoa é permitido saber apenas os pensamentos de Clarissa. Nos dele nunca consegui penetrar, pois Armando estava sempre armado. Nunca conseguíamos ler em seus olhos o que sentia ou o que queria. Essa mesma intransponibilidade era para Clarissa motivo de fascínio e raiva ao mesmo tempo. Gostava de homens enigmáticos, mas zangava-se por não conseguir decifrá-los. 

Passaram-se as semanas e Clarisse havia se adaptado muito bem à família que a recebera, ao clima, ao lugar. A língua nem de longe era um problema para ela. Chegou a acreditar que já teria  vivido ali em outras encarnações. Tudo lhe era muito agradável, a começar pelas pessoas. Ah, os franceses, os homens especialmente, estavam despertando nela sentimentos e sensações que nunca havia experimentado em 30 anos de Brasil. Contudo, o destino tem suas peripécias e Clarissa se apaixonou por Antonio, que não era francês. Toni nasceu na Itália e mudou-se para a França a procura de trabalho. Era jornalista cultural e fotógrafo e, portanto, com inclinação para as artes. Conversa agradável, boa aparência, ideias malucas... tudo aquilo despertou muito interesse em Clarissa. Logo começaram a se relacionar e se davam muito bem, nos cafés, pelos parques, no sofá, na cama, na cozinha... Em pouquíssimo tempo já faziam parte um da vida do outro e ambos estavam muito felizes. 

E assim seguiram-se quatro meses. Os mais rápidos da vida de nossa heroína, que saiu da sua rotina disponível para o novo e o encontrou. Que amou e foi amada durante o verão. Mas o outono chegou, derrubando folhas das árvores pelo chão e também a felicidade de Clarissa.  Precisava voltar para o Brasil. Queria levar Toni consigo, mas reconhecia que o Brasil não seria um bom lugar para alguém como ele. O que fazer? Durante o tempo que passaram juntos nenhum dele se preocupou com essa pergunta. Viviam um dia após o outro apenas. Mas é chegada a hora: o que fazer? Clarissa não pensou muito - ao contrário daquela que conhecemos no primeiro capítulo – e disse a ele “Eu vou voltar. Me espera.” Antonio se limitou a encostar sua fonte à dela com carinho, respirar fundo e beijá-la. 

Retornou ao Brasil, sem um plano sequer. Sem nada na cabeça e com Toni no coração. Depois de visitar sua mãe, de quem sentira uma saudade que nem ela mesma conhecia, tratou de organizar algo para reencontrar os poucos amigos. Convidou-os para conversarem em um bar. Para sua surpresa, foram todos que ela havia chamado e mais alguns que ficaram sabendo de seu retorno. As pessoas queria ver a nova Clarissa. Seguiram-se animadas horas, com histórias e outros blá-blá-blás. Pela primeira vez se sentia querida por aqueles que estavam próximos. E ela devia esse sentimento ao Toni, que lhe mostrara como é ser envolvida por sentimentos alheios. Finalmente, as coisas pareciam claras para Clarissa agora.

Todos foram embora e Clarissa foi a última a sair. Fernando ficara para lhe fazer companhia e acompanhá-la até o carro. Tamanha foi a surpresa de ambos, que saiam sorridentes, ao ver Armando parado na porta do bar. Por nada no mundo Clarissa esperaria por aquilo. Ela havia esperado tanto por ele, para aparecer assim, de repente, do nada, depois de tudo acertado e resolvido no seu coração? (Céus! Como estava bonito e atraente!) Disse a Fernando que podia ir. Ele parecia querer ficar - não sabia se a amiga ficaria bem ali - mas foi.

“Clarissa, preciso falar com você e tem que ser tudo de uma vez. Peço que, por favor, me deixe falar e depois, se quiser, eu desapareço... mas eu preciso lhe falar. Você pode me ouvir?” Ela fez que sim com a cabeça, ainda atônita com aquilo que presenciava. Ele fez sinal para entrarem no carro. Lá dentro, com olhos rasos d’água e voz embargada pôs-se a falar: “Eu quero te pedir perdão. Sempre fui incapaz de assumir meus sentimentos por você. Sempre me neguei em demonstrar o que sentia. Fui um fraco. Desde que você surgiu na minha vida, pensei em você todos, todos os dias... não houve um sequer que eu não me lembrasse de você. Eu te queria, mas não sabia lidar com isso e acabei te perdendo. Me perdoe. Sei que te fiz sofrer, sei que o acidente foi culpa minha e o remorso me consome desde então. Não fui vê-la pois não conseguiria olhar nos seus olhos e você não imagina o quanto foi difícil para mim todo esse tempo sem você. Na verdade, eu te amo e te quero comigo, mas sei que cheguei tarde. Só que eu não suportava mais tudo isso represado dentro de mim e, por isso, quero apenas que você me perdoe. Jamais quis lhe causar qualquer sofrimento, só que por não conhecer a mim, neguei isso a você também. Bem, era isso. Obrigada.”

Clarissa não estava acreditando no que acabara de presenciar. Armando havia se desarmado! Tudo que ela esperava ouvir, ela ouviu quando parou de esperar por aquilo. Veja só como são as coisas! Não tinha palavras para dizer a Armando. Todo o discurso preparado e ensaiado para um eventual retorno ela se esquecera durante sua estada na Europa. Todavia, respirou fundo, pois precisava falar alguma coisa. Respirou novamente. E mais uma vez.

“Você não me deve desculpas e eu tão pouco tenho que perdoá-lo por alguma coisa. Eu te amava exatamente da forma como você era e eu te quis com todos os seus defeitos.” Nova respiração profunda, outra e mais outra. “Foi graças a você que eu me redescobri, que hoje eu sou quem eu sou. Na realidade, eu devo lhe agradecer.”

Armando olhava para ela com tanta doçura no olhar, que não reconheceu em momento algum seu típico olhar evasivo. Por que ele nunca havia olhado assim para ela antes? Como poderia uma pessoa se revelar tanto em uma só noite? Que outras surpresas ainda estariam por vir...? Seu pensamento foi interrompido por um beijo súbito. Num ímpeto ele lhe puxara os cabelos e tascara-lhe um beijo e Clarissa se entregou naquele beijo como se fosse o último de sua vida.

Não havia como acreditar em tanta mudança. Aquele não poderia ser o Armando. Não sabia quem estava ali, só sabia que a sensação era boa e, por nenhum momento, a imagem de Antonio viera-lhe à cabeça. Havia uma química e um desejo latente pulsando naquele carro. Foram para um motel. Dois corpos em simbiose absoluta fizeram amor, apenas amor, sem palavras, sem promessas, sem juras... e foi muito bom!

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Clarissa - Capítulo IV: O Desgosto

Clavícula e costelas quebradas, Clarissa agora passava seus dias a assistir tevê. Lembrava-se apenas de alguns relances do acidente, nada conexo. Dias arrastados. Já não eram de muita emoção há tempos, mas agora, com sua mãe instalada dentro da sua casa para os cuidados necessários, a rotina tornou-se algo quase insuportável. Por um milésimo de segundo sentiu vontade de estar no balcão da farmácia... mas a vontade foi tão efêmera que voltou a se entreter com o seriado na tevê.

E foi assim por dias, semanas e semanas. Alguns amigos mandavam mensagens de ânimo pelo Facebook ou pelo Whatsapp. Alguns poucos foram visitá-la em casa. Mas o que contribuiu de fato para o aumento da tristeza em seus dias acinzentados é que ele - por quem saíra de casa aquela noite, a razão de ter batido o carro, o homem para quem se declararia - não se importou com o estado dela. Ele não mandou mensagem no Facebook, nem no Whatsapp e nem foi vê-la. A hipótese de que ele não soube do acidente foi afastada, porque ela mesma incumbiu alguém de sua inteira confiança para que providenciasse isso. E assim foi feito. Ela aguardou por dias, semanas e semanas um contato, ao menos um "como você está?", qualquer palavra que demonstrasse que ele ainda se importava com ela... mas não aconteceu. Aquela angústia de não ser correspondida em seus anseios, tornava os dias ainda mais fatigantes. A ausência dele, a presença da mãe em seu espaço e a impossibilidade de locomoção, tudo isso fazia com que ela olhasse para o céu e se imaginasse um pássaro, voando para longe dos seus problemas, das suas agonias.

Mas o tempo é sempre solidário a quem sofre. E sua dor foi se dissipando, dia após dia, semana após semana. Clarissa, que pensava demais, decidiu parar de pensar. Não é tão simples, mas era um exercício que ela se propôs a fazer. Sempre que, por um segundo, lembrava-se dele, logo tratava de desviar o pensamento. Tomou um foco e resolveu se dedicar a outras coisas. Suas costelas e clavícula se curaram, seu coração ainda não. Entretanto, ela sabia que devia agir rápido para curá-lo e de seu desgosto surgiu uma fagulha.

De volta a sua rotina - sem mãe, sem ele - pôs-se procurar atividades novas. Foi estudar francês, fazer natação e aprender tocar violão. Se arrumou, pintou o cabelo, fez uma tatuagem, trocou as roupas do armário e viu que tudo aquilo lhe fazia bem. Voltou a sorrir. E seu sorriso atraia olhares e convites e noites com companhias muito agradáveis. Assim, Clarissa foi voltando a viver. Desviando pensamentos, controlando emoções, seus dias voltaram a ter cores. Lágrimas de saudade, não mais.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Clarissa - Capítulo III: A Decisão

Não conseguia ver um palmo diante do seu nariz. Muita fumaça, muita mesmo. O vidro tornara-se uma parede fosca esbranquiçada. Assim era o banho de Clarissa. Habituada sempre a estar anuviada em pensamentos, as nuvens da fumaça quente do banheiro não a incomodavam nem um pouco. Pelo contrário, todo aquele mormaço causava-lhe um tremendo bem-estar. Sentia-se rodeada, abraçada e aquecida, tanto pelo vapor, quanto pela água quente caindo sobre seus ombros. Água quente esta que a fazia relaxar e entrar ainda mais em contato consigo. Naqueles instantes, passava o sabonete por todo o corpo e sentia-se... cada curva... se permitia tocar a sua pele e ter sensações e se conhecer... Escutava o barulho da água caindo e se permitia fazer uma viagem em seu infinito particular.

Após o banho, uma inquietude tomou conta do seu coração. Um daqueles sentimentos que nos incomodam a todo momento e não nos deixam enquanto não lhe estancamos a origem. Ela precisava falar com ele. Era muita coisa represada que implorava para sair. Mesmo que ouvisse um não... quem sabe um sim... Só saberia depois de tentar! 

Sabia que precisaria agir rapidamente, antes que a coragem se abrandasse... antes que voltasse a ser a Clarissa pensante de outrora. Foi ao guarda-roupa escolheu uma linda lingerie vermelha e um vestido também vermelho. Ora pois, se vermelho era a cor do amor, pensou ela, não custa nada reforçar com um batom escarlate. Uma última ajeitada diante do espelho e pôs-se a repetir o texto que ensaiara para declamar a ele: "ainda gosto muito de você. Quero voltar..." Pois, dentre as poucas coisas que Clarissa sabe sobre homens, uma delas é que a mulher deve ser direta se quiser se fazer ser entendida por um homem. 

E assim, fechou a sua casa e foi abrir seu coração.

Entretanto, o destino às vezes é cruel e Clarissa não conseguiu encontrar aquele que traria nova alegria aos seus dias. Ao passar por um cruzamento foi atingida em cheio por uma caminhonete em alta velocidade que passara no sinal vermelho. Seu carro foi lançado contra um poste que, com a pancada, partiu-se e caiu sobre ele. Quando os bombeiros chegaram, Clarissa estava muito ferida e inconsciente.

domingo, 20 de julho de 2014

Clarissa - Capítulo II: O Arrependimento

Permaneceu no sofá por mais de uma hora, entre devaneios e saudades. Até que foi interrompida por uma dor forte, daquelas que são acometidas as pessoas que não comem há mais de cinco horas. De fato, deveria estar com fome. As quatro bolachinhas Mabel e o café do lanche há muito haviam virado quimo. Ai o café... Clarissa tem gastrite. Como um bichinho de estimação ela começou a se desenvolver por conta de um relacionamento mal sucedido há uns oito anos. Acordava, pensava nele e o estômago doía. Saia correndo para o banheiro para vomitar, mas nada saía além de um líquido amarelo e amargo... tão amarga quanto a sensação de pensar naquela relação que estava vivendo. Lembrou-se daqueles dias e se arrependeu. Por instantes, se perguntou como pôde levar por tanto tempo algo que lhe fazia tão mal?

Levantou-se e foi para a cozinha preparar algo para comer. Podia fazer um bolo... mas sempre ficavam recobertos de mofo após o terceiro dia, pois não havia ninguém para comer com ela. Por isso Clarissa fazia bolo para as visitas: gostava de ter com quem dividir. Entretanto, como sempre, optou pelo bom e velfho sanduíche de presunto com queijo. Ela acredita, inclusive, que as bandejinhas de frios fatiados vendidos no supermercado foram a melhor invenção feita para os solteiros. Um sanduíche no café, outro no almoço, lanche e jantar. Preparou seu sanduíche e o traçou com um geladíssimo copo de Coca-Cola. Os mais rigorosos podem se perguntar: mas, e a gastrite? Clarissa sabe das coisas que lhe fazem mal e se envergonha por não conseguir parar de consumi-las. Sente dentro de si uma tristeza toda vez que faz algo que não deveria, e esse, é mais um dos arrependimentos que ela carrega em si: de não conseguir ser mais forte que suas vontades.

Clarissa tem uma coleção de coisas que faria diferente se pudesse voltar no tempo. Não teria ficado apaixonada tanto tempo por um menino só na adolescência, não teria feito o curso superior que fez, teria insistido mais com a mãe para conhecer o pai, não teria transado nenhuma vez sem camisinha, teria viajado para a Europa em vez de comprar um apartamento, mais banhos de chuva, menos intrigas, mais porres...

Ainda meio abalada pela saudade do capítulo anterior, Clarissa se chateou. Ficou brava consigo e com seus impulsos, tanto pela falta de controle relatada acima, quanto ao descontrole emocional nos momentos de raiva. Por que havia sido tão dura com ele? Pra que falou tanta coisa que ele não merecia ouvir? Sim, ele havia errado. Pisou na bola. Magoou-a. Todavia ela havia sido intransigente demais. E se arreepende por isso. E por não conhecê-lo, pensou que voltaria. Mas não voltou. Então, com o tempo se deu conta do quanto o havia ferido com suas palavras. Clarissa traz em si essa culpa, como tantas outras, mas não sabe como voltar atrás... Já quis ir até sua casa e dizer tudo que sente e pedir desculpas e se proporcionarem uma nova chance, mas não conseguiu... Enquanto isso, ela fica assim: oscilando entre o desejo de tê-lo novamente ao seu lado e a incapacidade de se mover, a inércia que a prende onde está.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Clarissa - Capítulo I: A Saudade

Clarissa chegou em casa mais pensativa do que o normal. Pensa muito, conclui demais... até mais do que deveria. Quisera Clarissa pensasse menos, concluísse menos, talvez tudo fosse mais claro.
Mas ela tem melhorado. Tem se permitido sentir mais. Sentir a terra, sentir o vento, sentir o coração... Coração este que sempre revela tantas surpresas.

Abriu a porta e ligou a lâmpada, encostou-se no portal e depois a apagou, ligou novamente e tornou a apagar, outra vez e outra vez... e o olhar parado fitava um móvel qualquer da sala. Resolveu deixá-la ligada. A luz lhe fazia bem.

Hoje, ao chegar em casa tão pensativa, se jogou no sofá: pés para cima, mãos cruzadas atrás da cabeça. Fez um backup do seu dia, guardou as sensações boas, tirou as devidas lições das ruins e, como um astronauta solto no espaço, começou a pensar...

Sentia saudade dele. Do toque, das mãos no seu cabelo, do peito em que se afagava, do olhar triste, das poucas palavras proferidas, das perguntas instigantes, dos sonhos voláteis... Sentiu saudade dos momentos que estiveram juntos e sentiu ainda mais dos que não estiveram. Daqueles que gostaria de ter vivido. E esta segunda saudade fez uma lágrima rolar pelo canto do olho e escorrer até cair nos cabelos – agora curtos – esparramados pelo sofá.

A saudade lhe assolou de tal forma que ela pensou "e se eu ligasse e...", entretanto não conseguiu concluir. Sentiu que não seria capaz de dizer nada, porque o sentimento lhe tomava tanto a ponto de lhe bloquear o ar e, consequentemente, a voz. Quando se tratava dele e da saudade que arrebatava seu coração, a sensação era tão avassaladora que precisava sair daquele momento a todo custo. Então, pôs-se a lembrar de outros amores, para ver se alguma outra saudade concorria com a dele.

E foi lembrando, lembrando, lembrando e quando viu, já estava pensando no Lucas, o namoradinho da 4ª série. Céus! Como eram maravilhosos seus problemas da 4ª série! Daria tudo para ter um "relacionamento conturbado" como o que tinha com o Lucas, na 4ª série! E começou a rir. A estratégia de desfocar a saudade havia dado certo. Agora, punha-se a recordar - com saudade - a falta de problemas de quando tinha 10 anos. Sentiu saudade das cartinhas escritas em papéis decorados e perfumados e, por um lampejo, lembrou-se de todos os atuais SMS não respondidos. Saudade da balinha Freegell's de cereja deixada dentro do caderno na hora do recreio. Saudade dos longos minutos depois da aula conversando na pracinha perto de casa. Saudade daquele beijo tímido e rápido dado ao se despedir. 

A lembrança do beijo tímido e rápido do Lucas a trouxe de volta ao mundo, ao seu sofá. Nova lágrima voltou a rolar quando se lembrou do primeiro beijo que deram naquela festa. De como ele estava bonito e gentil naquele dia. E uma segunda lágrima escorreu em direção aos cabelos quando percebeu que não se recordava do último beijo que haviam dado um no outro. 

terça-feira, 15 de julho de 2014

Clarissa - a minissérie

Prólogo

A Lorota da Rosa lança-se numa nova experiência. A partir de hoje inicia-se uma minissérie no meu blog. 
Contarei nuances da vida de Clarissa. Faremos uma breve viagem ao interior de uma mulher prestes a completar 30 anos. Convido-o a conhecer seus medos, seus desejos e frustrações.
Clarissa, ao contrário do que o nome indica, não possui ideias claras. Tudo em sua vida é um amontoado que se embaraça com fios dispersos. Mas ela quer mudar e, quem sabe você amigo leitor, possa colaborar nessa história que está apenas começando.

Nasceu há 29 anos, numa cidade grande. Nunca conheceu o pai. A mãe lhe dizia que não valia a pena saber quem era. Que ele não prestava. E assim foi pela meninice, juventude e adultice: quando perguntavam sobre o pai, ela respondia apenas "não tenho". Não preciso nem destacar o que parece lógico: ela não se relacionava muito bem com homens. Nunca compreendeu como aquilo funcionava.

Na escola, nem aplicada, nem relapsa, apenas suficiente. Fazia o que lhe mandavam... nem mais, nem menos. A vida profissional repetia o comportamento do colégio... nem mais, nem menos. Ah, sim, claro! Nossa protagonista fez faculdade! Não fez medicina, não fez filosofia. Tornou-se farmacêutica, trabalhando detrás do balcão de uma farmácia por dias e dias e dias.

Não morava mais com a mãe, justamente por se parecer demais com ela. Não conseguiria conviver consigo duplamente. Uma Clarissa com todos seus devaneios, suposições e ideias obscuras já era demais. Por isso saiu de casa: por menos Clarissas num mesmo espaço.

Bem, feitas as devidas apresentações, resta-me convidá-lo mais uma vez a acompanhar o desfecho da minha minissérie em 5 capítulos. 

Prazer, Clarissa.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A menina do aparelho

Sou fotógrafa. O quê? Você não sabia, amigo leitor? A bem da verdade, há tempos que não nos falamos com periodicidade, certo? Perdoe-me a minha falha. Sim, amigo, estou me aventurando pelo mundo da fotografia e com ela, o mundo dos eventos. Casamentos, aniversários, formaturas... essas trivialidades únicas (trivial para quem trabalha nelas, únicas para quem as vivencia).

Mas meu rompante de escrever se deu agora, em que eu editava as fotos da festa de sábado passado. Vi a foto de uma adolescente de sorriso contido. Sabe aquele sorriso de boca fechada? Típico dos usuários de aparelhos ortodônticos? Pois é. Um sorriso contido é um pássaro que morre um pouco por dia dentro de uma gaiola. 

Durante a festa passei na mesa em que a moça estava sentada e pedi para tirar uma foto dela com a mãe. Como precavida fotógrafa que sou, tirei duas fotos seguidas (afim de evitar piscadelas). Em ambas ela sorriu sem mostrar os dentes. Detalhe: ela tem a boca grande, com lábios grossos. Não ficou legal. Agradeci e fui saindo, entretanto, não pude me conter e perguntei se ela usava aparelho. Ela afirmou. E me permiti um pouco mais de intimidade: "Você deveria sorrir de boca aberta. O aparelho faz parte dessa fase da sua vida e não adianta querer negar isso." A mãe dela concordou comigo. Virei as costas e fui fotografar outra mesa. 
Ao terminar as fotos e gracejos da mesa, a moça do aparelho me chama: "Moça, tira outra foto minha? Mudei de ideia. Vou sorrir." Fiquei muito feliz. Primeiro, por ela ter se permitido mudar de posicionamento. Segundo, por se lançar ao novo para ver como ficaria. E, por fim, por reconhecer que aquele é o MOMENTO dela, com aparelho. Você sorri e a vida sorri de volta.

Agora, estava justamente olhando as fotos da recepção, bem no início da festa, e ela não sorriu de boca aberta... A menina que registrei na entrada, certamente não é a mesma que saiu de lá.

domingo, 15 de junho de 2014

Ensimesmarse

Na canção "Nada por mim", do Kid Abelha, o sujeito queixoso reclama de um companheiro que não lhe retribui a dedicação empenhada e, portanto, ele tenta bater a real na outra pessoa e diz: "não vá pensando que eu sou seu".
Infelizmente, gostaria que minha vida fosse menos complexa nesse aspecto. Ora estou de um lado contracenando com uma pessoa que me desdenha, ora estou de outro partindo o coração de alguém que me quer bem. Por quê? Eu me pergunto, por quê? Pooorr quêêê????
Seria tão mais simples amar e ser amado na mesma proporção. Sem cobranças, sem incertezas, sem rusguinhas, sem a pessoa se sentir "fácil demais".
Pense comigo, nobre leitor, o quão bom seria se fôssemos programáveis. Sabe, quando você entra nesses ambientes automatizados em que basta dizer "luz ligar" e pluft! as luzes se acendem. Agora, imagine: "coração amar" e pronto. Deus, em sua infinita sabedoria, não quis nos poupar desse sofrimento do não controle das emoções e sentimentos. Por quê? Eu me pergunto, por quê? Pooorr quêêê????
Mas, ultimamente, tenho cogitado uma hipótese que pode dar certo. Não sei. É meio arriscada, maaass... Imaginei que eu posso simplesmente amar a mim mesma. Sim, canalizarei toda a atenção que possuo, todo o carinho, todas as ideias fantásticas e as darei a quem de fato as merece: eu. Outrossim, quem mais poderia me retribuir na mesma proporção todo afeto, respeito e amor? Esperar isso de outra pessoa que não seja eu seria por demais injusto, não é mesmo? Pois, apesar do meu egoísmo, compreendo que cada pessoa possui necessidades diferentes, tal como na canção.



quarta-feira, 4 de junho de 2014

Paradoxo

Já contei a vocês que tenho um fetiche por homens de All Star. Sim, homens. Não digo rapazes, meninos, crianças e, sim, homens. Aquele cara de seus 30 e poucos anos, que em vez daquele sapato preto sisudo calça um lindo tênis All Star cáqui ou preto. Não sei o real motivo. Fetiches são assim: inexplicáveis. 

Ontem descobri um novo. Homens de terno pilotando moto. Uau!!! Passou por mim e não pude deixar de segui-lo com os olhos até onde a vista alcançou. Enquanto eu o observava tecia pensamentos de mim para mim mesma dizendo: que lindo! que paradoxal! que postura! que irreverência! Era uma moto grande, talvez uma Honda Bros. O que aumentou ainda mais a imponência daquele homem de terno, com a gravata esvoaçante. Imaginei-o descendo da moto na porta do seu trabalho. Talvez um advogado, ou um representante comercial, ou um político... não importa! Na minha imaginação ele descia da moto, tirava o capacete e, ao mesmo tempo que retirava a pasta do compartimento na garupa da moto, guardava-o lá dentro. Passava a mão pelos cabelos, nem curtos, nem longos. Uma breve olhada no retrovisor. Ajeitava a gravata e adentrava.

Acho que meu interesse está no fato de não esperarmos que alguém de terno ande de moto. Engravatados andam de carro e quanto mais luxuoso o carro, maior o nosso (meu) descaso. É trivial um homem de terno pilotando um Azzera, por exemplo.

Está provado. Meu olhar sucumbe sempre ao inesperado. Não ao bizarro, mas ao estiloso. Aquele que se impõe, que chega e pá: cheguei!

domingo, 6 de abril de 2014

Ser mãe do Pedro

Ser mãe do Pedro é uma dádiva! São tantas histórias, tantos ensinamentos, tantos embates que me transformam todos os dias.
Cada coisinha bonitinha que ele faz, sinto vontade de congelar o tempo. Fotografar, filmar, gravar apenas não é o suficiente. Queria reviver a mesma emoção por várias vezes. Mas sentimentos são únicos, não é mesmo!? Só se sente o que sente apenas uma vez. Você pode ficar feliz com determinada circunstância, mas cada momento traz em si uma carga única que jamais será vivenciado de novo.
Gosto tanto de você, leãozinho...

quinta-feira, 27 de março de 2014

"Eu me remexo muito" ou "keep on moving"

Estava hoje a me recordar de quando escolhi o nome de meu filho.
Simpatizava com o nome Pedro e nas buscas por significado na internet deparei-me com a seguinte definição:
"Pedro
Origem Aramaica
Significado: Significa pedra. Sempre em busca da segurança, Pedro é um eterno inquieto. É perfeccionista e gentil por natureza, segue a sua intuição e sensibilidade, muito mais do que aparenta. Severo e reservado, tem os pés bem assentes na terra, racionalizando tudo, seja no trabalho ou na vida afetiva, de forma a alcançar posições firmes e relações estáveis. Desconfiado e hesitante no campo sentimental, opta mais pela razão do que pelo coração."


Atente bem para a expressão “eterno inquieto”. Passa despercebida, não é mesmo? Mas saiba você que se eu tivesse apenas uma palavra para nomear o comportamento do meu rebento, eu o chamaria exatamente de inquieto.
Não digo que meu filho seja hiperativo, mesmo porque não tenho conhecimentos para diagnosticar isso. Mas é um garoto adorável que está sempre a procura de algo novo.
A partir desse ponto comecei a refletir sobre pessoas estáticas. Pessoas que não se movem, não saem do lugar, não fazem a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e nada. São vegetais que apenas contemplam os dias passando diante de si.
Para quem não sabe aonde vai, qualquer lugar serve.
É isso, filho, continue inquieto. Traçando objetivos. Tome suas decisões e vá nelas até o fim! Mas se não quiser ir até o final, tudo bem, retorne e comece de novo. Mas esteja sempre em movimento, porque pessoas que não se movem, não deveriam sequer merecer ser gente!

sábado, 8 de março de 2014

A luz acabou

Destranquei a porta e teclei o interruptor da sala. A luz não se acendeu. Refiz o gesto três vezes e nem a minha insistência desesperada a fez mudar de ideia. A energia havia acabado, como já percebeu o atento amigo leitor. 
Fiquei frustrada.
Mas não me deixei abater. Peguei o celular no bolso e o liguei. Ah, celular... O que seria de mim sem você? Sempre tão presente, tão atencioso, tão, tão... tão necessário. Sua luminosidade me guiou até onde eu guardo as velas. E o fósforo? Onde estaria o fósforo? Uma vez que o fogo na minha casa provem somente do acendedor elétrico do fogão, nem me lembrava da última vez que havia pego um desses aqui em casa. Enfim, encontrei ambos e dei início à minha sessão romântica. Sim, porque não sei por que cargas d'água velas são sinônimo de romantismo! Então, iniciei a minha noite romântica comigo mesma.
Meu primeiro ato romântico à luz de velas foi tirar os tênis. Claro, porque é preciso liberdade nas noites românticas! Sentei-me no sofá e começou o devaneio.
Ao contrário do que possa imaginar o distinto leitor este post não é sobre velas ou romantismo e, sim, sobre expectativas. A todo momento, por mais que tentemos nos convencer que não, estamos criando expectativas. Há uma dificuldade em nós em lidar com aquilo que não é esperado ou a ausência do esperado. O simples fato corriqueiro de tentar acender a luz e não conseguir nos deixa frustrados. 
Isso porque estou falando de coisas do nosso cotidiano: não ter água no filtro, o carro não dar partida, uma blusa sem passar... Estamos todo o tempo expostos a não realizações e sabe o que é mais fabuloso quanto a isso? Nós sobrevivemos. O ser humano é dotado de incrível capacidade de superar frustrações, ao mesmo tempo que cria suas expectativas. 
Vem alguém e nos diz "não crie expectativas" e eu respondo "não há como, elas se criam sozinhas dentro de mim". Barata. Já viu alguém criar barata? Mas o fato é que em toda casa tem. Em algum lugar escondido há sempre uma baratinha. Assim são as expectativas. Você está sempre esperando que algo aconteça. A ligação do dia seguinte, o elogio após o jantar, o carinho após o sexo... Entretanto, lidamos com isso com toda elegância que as situações requerem. No meu caso, usei o celular. Paliativo, mas funcionou. O mundo não vai parar porque as coisas não acontecem do nosso modo. Continue criando suas baratinhas interiores, amigo leitor, mas aconselho que não as deixe te dominar.