sábado, 13 de agosto de 2011

Peripécias do caixa

Todo mundo já teve sua identidade botada à prova em alguma ocasião. Por diversas vezes temos de passar por circunstâncias em que somos questionados se nós somos nós mesmos. Por exemplo, quando vamos fazer um vestibular, ou entrar em um recinto restrito, ou o melhor de todos: quando vamos sacar dinheiro em um banco. Adoro esse último porque eu sou o algoz da questão. Sou eu quem olho para a pessoa com cara de desconfiada e a deixo toda constrangida.
O sujeito se aproxima do meu caixa:
-Bom dia. Pois não?
-Quero fazer um saque.
-Me empresta sua identidade e o cartão da conta, por favor.
Entrega-me a identidade. Olho para a foto e para ele, para a foto e para ele, para a foto e para ele. Normalmente na segunda vez ele dá um sorrisinho. Não sei porque as pessoas riem quando fazemos isso. Parece um impulso! Quase todos riem! Será que pensam que devem ser simpáticos para que eu os reconheça na foto? O que na verdade é uma incoerência, porque ninguém fica simpático em foto de identidade.
-Não tá parecendo você, não... - digo pra dar uma amedrotadinha. Olho para a foto e para ele pela quarta vez e balanço a cabeça.
Nesse momento a pessoa perde a simpatia e começa a ficar meio desesperado.
-Não. Mas sou eu sim! Eu tenho outros documentos aqui ó: CPF, título de eleitor,... e vai tirando as coisas da carteira...
-Ah, mas nenhum desses tem foto. Mas vamos fazer o seguinte: eu vou fazer o saque e vou fazer o reconhecimento pela a sua assinatura, tá bom?
Para ser caixa precisamos saber um pouco de grafoscopia e datiloscopia, porque a caligrafia da pessoas tem traços característicos que permitem identificá-la e digitais não existem duas idênticas no mundo.
-Assina aqui, por favor, como está na identidade. (Depois vide aqui, mas depois...)
A pessoa assina. Daí eu pego aquela assinatura e começo a olhar minuciosamente cada detalhe e compará-lo com a identidade. (Obviamente só faço isso nos dias em que não há movimento, por que em dias cheios já teria pago o cliente há muito tempo!) Examino a autenticidade da identidade, olho para a assinatura, se preciso, pego opinião com outro colega. Sempre na maior desconfiança, porque eu gosto de ver a fragilidade do cliente quando eu ponho em dúvida a sua veracidade. Normalmente as pessoas tendem a ficar nervosas quando são colocadas em cheque sobre si mesmo.
Eu, por exemplo, posso ter certeza de algo. Mas quando alguém fala "tem certeeeeza?", pronto! Ela vai toda embora! O cliente também é assim, tanto que pergunta:
-Quer que eu assine de novo? Deixa eu dar uma olhadinha como está aí!
-Assina de novo, por favor. O mais parecido possível. Porque aí fica difícil pra mim, né? A foto não parece! A assinatura não confere! Vai que depois o titular da conta vem aqui e briga comigo por ter entregue o dinheiro dele pra outra pessoa... - brinco um pouco para parecer menos carrasca.
-Não. Mas a conta é minha mesmo. - enquanto assina novamente - Não sei pra que tanta burocracia pra sacar o meu dinheiro...
-Você deveria nos agradecer por estarmos cuidando tão bem do seu dinheiro! - repreendo-lhe.
Por fim, resolvo pagá-lo. Na verdade, eu ia pagar de todo jeito desde o primeiro foto/fucinho, mas de que adianta trabalhar num lugar desses e não se divertir um pouco?

3 comentários:

  1. Pô, Aninha! A maioria das pessoas hoje em dia mal sabe quem elas são. Se agarram ao número, ao papel que alguém (sabe-se lá quem) roboticamente registrou. E você ainda tem coragem de quebrar essa impressão frágil que as pessoas tem de quem são. Vivem no automático.
    Por isso gosto de você. No final das contas, algumas vão refletir sobre isso.

    (Na época de colégio eu detestava chamava. Eu entendia que era bem mais prático mas não gosto muito da ideia da pessoa ser um número. Coisas de adolescência (que acabei trazendo pra vida adulta))

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  2. Erre Ponto, amei esse seu post!

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  3. Ana, que você é criteriosa eu sei, que gosta de se divertir eu também sei, mas carrasca eu ainda não sabia... ou sabia???
    Conte aos leitores as peripécias de um funcionário do PROCON que um belo dia resolveu ir ao banco e foi chamado ao caixa da Ana Paula... ou de como um cliente pode ser vingativo e ameaçar um caixa com uma faca de mesa...
    Bela iniciativa amiga, continue escrevendo!
    Bjos
    Jana

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