terça-feira, 22 de julho de 2014

Clarissa - Capítulo III: A Decisão

Não conseguia ver um palmo diante do seu nariz. Muita fumaça, muita mesmo. O vidro tornara-se uma parede fosca esbranquiçada. Assim era o banho de Clarissa. Habituada sempre a estar anuviada em pensamentos, as nuvens da fumaça quente do banheiro não a incomodavam nem um pouco. Pelo contrário, todo aquele mormaço causava-lhe um tremendo bem-estar. Sentia-se rodeada, abraçada e aquecida, tanto pelo vapor, quanto pela água quente caindo sobre seus ombros. Água quente esta que a fazia relaxar e entrar ainda mais em contato consigo. Naqueles instantes, passava o sabonete por todo o corpo e sentia-se... cada curva... se permitia tocar a sua pele e ter sensações e se conhecer... Escutava o barulho da água caindo e se permitia fazer uma viagem em seu infinito particular.

Após o banho, uma inquietude tomou conta do seu coração. Um daqueles sentimentos que nos incomodam a todo momento e não nos deixam enquanto não lhe estancamos a origem. Ela precisava falar com ele. Era muita coisa represada que implorava para sair. Mesmo que ouvisse um não... quem sabe um sim... Só saberia depois de tentar! 

Sabia que precisaria agir rapidamente, antes que a coragem se abrandasse... antes que voltasse a ser a Clarissa pensante de outrora. Foi ao guarda-roupa escolheu uma linda lingerie vermelha e um vestido também vermelho. Ora pois, se vermelho era a cor do amor, pensou ela, não custa nada reforçar com um batom escarlate. Uma última ajeitada diante do espelho e pôs-se a repetir o texto que ensaiara para declamar a ele: "ainda gosto muito de você. Quero voltar..." Pois, dentre as poucas coisas que Clarissa sabe sobre homens, uma delas é que a mulher deve ser direta se quiser se fazer ser entendida por um homem. 

E assim, fechou a sua casa e foi abrir seu coração.

Entretanto, o destino às vezes é cruel e Clarissa não conseguiu encontrar aquele que traria nova alegria aos seus dias. Ao passar por um cruzamento foi atingida em cheio por uma caminhonete em alta velocidade que passara no sinal vermelho. Seu carro foi lançado contra um poste que, com a pancada, partiu-se e caiu sobre ele. Quando os bombeiros chegaram, Clarissa estava muito ferida e inconsciente.

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