Não é apenas um sabonete

 Cá estamos nós mais uma vez... agora, em 2026. Muita água passou debaixo da minha ponte desde o tempo em que eu escrevia nesse blog. Mas hoje aconteceu algo que eu achei digno de uma postagem. Nada relevante para você, obviamente, amigo leitor. A graça - não no sentido de ser engraçado e, sim, de ser um agraciamento - do que vou escrever aqui acredito que tenha valor só para mim. Portanto, não crie expectativas pensando que retomei a escrita e que, portanto, teremos aqui O texto, A revelação, ou algo grandioso/valioso que o valha. É que o acontecimento, de uma singela primaz, encheu meu coração com um morninho gostoso, que eu queria registrar para que daqui há alguns anos eu volte aqui e sinta ao menos de relance essa sensação gostosa novamente.

Eu me sinto velha. E não é de hoje que tenho essa velhitude dentro de mim. Quando criança eu gostava de coisas de velho, aprendi muitas delas com eles. Tradições, palavras, expressões, receitinhas... aprendi a gostar de relíquias e conservá-las. Hoje meu sentimento é de gratidão, porque se não fosse por eles, não seríamos ou teríamos o que somos/temos hoje. Interessante também perceber que aparentemente eu exalo essa energia anciã. Minhas amigas quando vêem algo antigo dizem se lembrar de mim. Não perco a oportunidade para uma pilhéria: "é assim mesmo! vê um negócio velho e acabado e diz que achou a minha cara! entendi o recado!" Elas sabem que estou brincando porque, na verdade, entendo o que querem dizer. Sei que quando dizem que minha casa parece casa de vó não é demérito algum porque casa de vó é aconchego, é cheiro de café coado no bule de pano e roupinha de cama limpa guardada na caixa de enxoval. 

Meu filho está com 16 anos e vejo nele muita coisa de velho também. Quando começou a se barbear pediu um estojo desses que se usa lâmina Gillette, mesmo com todas as opções de barbeadores modernos no mercado. Gosta de relógio de ponteiro com pulseira de metal - igual ao avô. Apaixonado por Gol GTS - aquele quadradinho. Ouve rádio. Esses são alguns poucos exemplos dos gostos peculiares do meu herdeiro (na melhor acepção da palavra). Só que hoje aconteceu a coroação, o suprassumo da manifestação anciã desse Benjamin Button dos anos 2000. Ele, sozinho, por si só, sem que ninguém o influenciasse (a redundância é proposital, acalme-se), comprou um sabonete Phebo! Sim, amigo leitor, aquele Phebo tradicional, embalagem amarela, barra marrom, Odor de Rosas. 



É impossível sentir esse cheiro e não associar a um senhorzinho saindo do banho. Calça marrom de tergal, chinelinho franciscano, camisa de manga curta com um pentinho no bolso, cabelinho ralo e grisalho penteado de lado e o cheiro inconfundível do Phebo o anunciando antes mesmo de adentrar qualquer cômodo da casa. 

Há quem diga que o cheiro é demasiado forte e até perturba os sentidos. Não tiro a razão de quem se sente assim. Mas peço licença para contemplarmos a poeticidade do produto para além das percepções olfativas. Quantas vidas foram marcadas por esse cheiro? Quantos romances feitos e desfeitos após um banho de Phebo? Quantos netos brincaram com vovôs cheirosos assim? É isso. Um produto, muitas histórias, muitas vidas e ao ser comprado voluntariamente por um jovem de 16 anos, podemos inferir (ou talvez, querer acreditar) que o Phebo continuará marcando gerações e construindo memórias.

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