sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Clarissa - Epílogo

"Querido Antonio,

Quatro longas semanas se passaram desde que vim embora. Sua presença foi muito marcante em meus dias e ainda tenho a impressão de ouvir sua voz quando ando pelas ruas. Aqui no Brasil tudo permaneceu como eu deixei e a sensação que tenho é que o tempo parou quando parti. Enfim, sensações...

Ontem fui visitar uma amiga, a Ana Paula, aquela jornalista que lhe falei, lembra? Que também é fotógrafa e tem um blog de crônicas. Ela tem um filhinho adorável e agora, por hobby, dedica horas do seus dias a cultivar plantinhas no seu quintal. Na nossa conversa ela me contou sobre sua experiência em plantar girassóis. Comprou as sementes, fez covas rasas, plantou-as com a ajuda do Pedrinho e esperou para ver suas lindas flores amarelas nascerem. Mas elas não nasceram.

Quando foi verificar o que havia se sucedido, percebeu que os pássaros descobriram a farta comida guardada debaixo de uma fina camada de terra e comeram todas as sementes. Contudo, minha amiga não se abateu e plantou seus girassóis mais uma vez, agora numa cova mais profunda. Ainda assim os pássaros – já espertos –  continuaram a comê-las. Enquanto conversávamos no quintal, ela estava fazendo sua terceira tentativa. Colocaria algo para espantar as aves dessa vez. Como bem a conheço, sei que não desistirá enquanto não vir ao menos um pé de girassol nascer em seu terreiro.

Por que lhe contei todo esse enredo? Porque quero que você me diga o quanto somos capazes de interferir no nosso destino. O quão poderosos somos para tomar nossas decisões e quanto elas podem impactar no nosso futuro. Tudo já está escrito ou somos nós quem escrevemos? Na verdade, não quero que você me responda. Nem poderia... São apenas perguntinhas frenéticas que pululam na minha cabeça desde que voltei para a minha realidade aqui no Brasil.

A minha tendência, Antonio, é acreditar que o que tem de acontecer, vai acontecer. Pode até ser que graças a uma decisão ou outra as coisas tomem um rumo diferente por algum momento, mas o que tiver de ser, será. Se já estiver pré-disposto que minha amiga colherá seus girassóis, poderão vir pássaros de todos os lados do mundo que não conseguirão detê-los... algum girassol nascerá. Todavia, se for o oposto, se a sina daquele quintal for nunca ter um girassol, a Ana Paula tentará, tentará e tentará inúmeras vezes e será tudo em vão. Mas é muito importante que ela tenha tentado. Às vezes, o percurso até o destino é mais gratificante que ele próprio. Outra dúvida que me ocorre: qual seria o momento certo de parar? Como saberíamos se o destino foi cumprido ou não? Acho que não sabemos ao certo, não é mesmo?! 

Só queria que soubesse que você foi uma linda parte do meu percurso até o meu destino, mas ainda não cheguei ao final. Isso é o que o meu coração me diz e essa tem sido a única forma de me balizar entre decisões: ouvindo meu coração. Então, com toda amizade e cumplicidade que conquistamos, peço licença a você para sair da sua vida. Não retornarei mais à Europa. Se, por algum momento, te magoei, perdão. Obrigada pelo sonho que foi conviver ao seu lado. Agora vou sonhar por aqui.

Com carinho,

Clarissa."

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