terça-feira, 4 de novembro de 2014

Sobre sumatras e homens

Quando meu filho ganhou um dinheiro da avó paterna para adquirir um aquário, confesso que não fiquei muito animada. Mas à medida que fui comprando as coisas e os peixinhos fui me empolgando com a ideia. É legal ouvir o barulho da água caindo da cascatinha ininterruptamente, digo até que é terapêutico. Também gosto de ficar olhando o comportamento dos peixinhos. Confesso que os comparo com pessoas conhecidas: têm aqueles mais bobinhos, os mais agressivos, aqueles que ficam “na dele”, os que só querem saber de comer...

Entretanto, há um que me chama mais a atenção e é sobre ele que quero falar hoje. O sumatra. Não vou perder tempo aqui pesquisando e transcrevendo a sua espécie, características biológicas e físicas, tampouco vou mostrar uma foto dele. Quero apenas descrever o seu comportamento e o que tenho vivido com ele. Digo ele, mas na verdade, são eles, no plural. Vou nominá-los para que você, amigo leitor, não se perca em minha narrativa.

No começo comprei Ichi e Ni. Não se davam muito bem e Ni acabou por assassinar Ichi. Observando que todos no aquário tinham outros amigos da mesma espécie, quis dar nova chance a Ni e comprei San para lhe fazer companhia. Fui pescar e da minha pescaria trouxe dois pequeninos cascudos. Quando os coloquei no aquário, Ni devorou o primeiro vorazmente! Numa só tacada o comeu ali, diante dos meus olhinhos. Fiquei pesarosa por ter retirado o cascudo do rio, onde teria uma vida promissora, para viajar 300 km e morrer pela boca de um sumatra mimado e egocêntrico de aquário. O segundo cascudo desapareceu dias depois. Então, viveram razoavelmente bem por umas duas semanas até que San adoeceu. Um sumatra, custa em média R$ 2,50 e tamanha foi a minha dúvida quando o veterinário me disse que o remédio para curar San custava R$ 7,50! Ora, eu poderia jogar o peixe doente fora e com aquele dinheiro adquiriria três outros! Mas tive pena. Quem sou eu para determinar a duração da vida do peixinho? Fiz minha parte e comprei o remédio. Separei-o dos demais e comecei a tratá-lo. San não nadava e ficava apenas amuado no fundo do recipiente, mas eu insisti. Por 10 dias o mantive isolado e vinha observando melhoras em seu aspecto. Até mesmo ele já se sentia melhor e voltara a nadar com rapidez. Um dia acordei e ele não estava no recipiente. Sua alegria em  se recuperar foi tamanha, que pulou para fora do recipiente direto para as garras da morte. Encontrei-o morto debaixo do rack. Fiquei frustrada (e ainda estou um pouco). Como você se sentiria se tivesse se dedicado à cura de alguém e de repente ela procura a morte – que você a privou. A partir disso começo a me perguntar: eu deveria tê-lo deixado morrer quando adoeceu? De que adiantou tanto esforço para recuperá-lo?

Ni ficou sozinho de novo. E assim permaneceu por muitos dias no aquário. Passei a observá-lo mais e ele parecia não se importar de ficar sozinho. Ele nada rápido, come muito, persegue os outros peixes. Um pequeno encrenqueiro. Enche a boca de ração. Às vezes acho que faz isso só para que os outros não tenham o que comer, mais do que por fome propriamente dita. Tenho tido dúvidas quanto à índole de Ni. Um dia cheguei do trabalho e meu tricogaster azul estava morto. Não vi o crime, mas tenho tudo para acreditar que o sumatra pode ter dado início ao massacre.

Precisava comprovar minha suspeita sobre Ni. Se, de fato, o problema era dele ou da espécie. Comprei Shi, Go e Roku, todos sumatras... Além deles, algumas outras espécies e, em especial, uma dupla de acarás-bandeiras (lindos!). Ao soltá-los no aquário, Ni cumprimentou os três de sua espécie e elegeu algum novo integrante para perseguir. A infelicidade de Ni é que resolveu bater justamente num dos meus favoritos e não tolerei essa sua nova demonstração de prepotência e arrogância. Chega uma hora que, por mais que sejamos apegados a certos peixes e por maior que seja nossa afeição, precisamos dar um basta em suas atitudes. Meu sumatra implicante e briguento foi advertido. Está separado dos demais, dentro de um copo, sem plantas, sem bolhas, sem pedras... Às vezes é preciso perder pra dar valor ao que tem. Acredito que isso não será suficiente para que aprenda a lição, mas foi uma tentativa. Se ao soltá-lo novamente com os demais ele insistir nesse comportamento anti-social, antiquado, antiaglutinante, antipático, anti-romântico, anti-tudo, serei forçada a devolvê-lo para a loja. Tenho dito. (29/10/2014)

Epílogo

Ni ficou isolado por dois dias. Teve seu universo reduzido a 400ml de água, apenas isso. Não comeu. Não teve seu oxigênio renovado. Não conviveu com outros peixes. Minha vontade era de escrever aqui que ele pensou, refletiu sobre suas atitudes e chegou à conclusão que precisaria ser um peixe melhor. Todavia, sou impedida de me expressar assim porque aprendi desde pequenininha na escola que animais são seres irracionais. Portanto, não tenho a audácia de dizer o contrário. Só sei que Ni não corre mais atrás do meu lindo acará e vive pacificamente com os demais. Ultimamente tem sido o líder do quarteto e Shi, Go e Roku o idolatram.(04/11/2014)

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