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Papel de presente ou papelão?

Conversando com um amigo, ele brincou:  -Gostaria de ser um papel de presente, assim todos olhariam para mim e ficariam felizes. Eu sou uma caixa de papelão que as pessoas querem logo abrir pra ver o que tem dentro, ou querem me usar para carregar coisas, uns me jogam fora, outros me catam na rua para revender. A interessante metáfora do meu amigo me fez refletir um pouco. Somos papel de presente ou uma caixa de papelão? Vou limitar a minha interpretação à canção do O Teatro Mágico, que expressou lindamente esse sentimento em "Cidadão de Papelão". O cara que catava papelão pediu Um pingado quente, em maus lençóis, nem voz Nem terno, nem tampouco ternura À margem de toda rua, sem identificação, sei não Um homem de pedra, de pó, de pé no chão De pé na cova, sem vocação, sem convicção À margem de toda candura À margem de toda candura À margem de toda candura Um cara, um papo, um sopapo, um papelão Cria a dor, cria e atura Cria a dor, cri...

Don't take my hand

O Facebook é um grande conselheiro.  Tiro muitos conselhos sábios de lá. Ontem mesmo li o seguinte "Durma com ideias e acorde com atitudes." Estou prestes a tomar uma atitude, com um delay de... digamos... uns dez anos... Nesse momento o ditado "Antes tarde do que nunca" faz todo o sentido do mundo. Mas preciso confessar uma coisa: tenho medo. Tenho medo do que é novo. Tenho medo dos sentimentos com os quais não consigo lidar. Tenho medo da opinião alheia. E, hoje, no discurso de uma colega do trabalho que se aposentou, veio mais uma frase para somar a esse turbilhão pelo qual estou passando nesse momento. A colega disse mais ou menos assim: eu queria sair daqui à francesa, sem ser notada, sem ter de passar por esse momento aqui, emocionada, despedindo de vocês. Entretanto, eu me lembrei que nunca fugi de nada da minha vida e não é agora que vou fazer isso, nesse momento tão especial para mim. Agradeço a Deus por ter tomado essa decisão, porque me sinto muito...

Suicídio sentimental

Ultimamente tenho tido dores no peito, falta de ar, calafrios na barriga, nós na garganta... São sintomas recorrentes de uma alma presa. São sintomas de uma pessoa presa em orgulho. Mas não quero soltá-los. Meus sentimentos soltos são tolos demais, frágeis demais. Ninguém os valoriza, ninguém os leva a sério. Prefiro assim: todos presos dentro de mim, me causando desconfortos e me tirando a paz. Libertar sentimentos soa como fraqueza... e se tem uma coisa que eu não sou é fraca. Fui forte o bastante pra suportar até aqui e vou permanecer suportando... e definhando... e me enclausurando... e sofrendo. Eu até gostaria de dizê-los, mas para todos que escolhi revelá-los se opuseram a me ouvir. Eu disse ouvir. Porque escutar, até as pedras escutam.  Sentimentos, fiquem todos aqui no meu peito e permaneçam me esfaqueando de dentro pra fora. Sigam a sua metástase e me levem à sucumbência, se é isso que querem.

Minha viagem à Chapada

Quando recebi o convite para conhecer o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros já estava com outra pequena viagem marcada com algumas amigas. Confesso que não gosto de viajar dois finais de semana seguidos. Entretanto, era um senhor convite. Um daqueles que aparecem raramente e, melhor ainda, tinha chances de dar certo. Sim, vamos. Tenho de reconhecer que não poderia ter ido em companhia melhor. Uma pessoa amável, educada, disposta (e bota disposição aí, porque eu jamais seria capaz de dirigir todos os quilômetros que ele dirigiu!), zelosa e inteligente. Realmente uma ótima companhia. As belezas naturais do lugar são inegáveis. A simplicidade do povo interiorano, a misticidade do local e a tranquilidade que o ar puro nos traz é um refresco para a alma e a mente atribulada. Lamentei somente não termos mais dias para desfrutar daquele paraíso. Tantos lugares ainda ficaram por conhecer. Coisas novas para experimentar. Um convite ao retorno. Os Kalungas - comunidade quilombo...

Instavida

Para gostar de uma pessoa, precisamos gostar de seus defeitos também? Precisamos aceitá-los e aplaudi-los? Bem, se a resposta for não, sinto-me à vontade para partilhar com você esse texto. Se for sim, pode parar de ler por aqui mesmo, porque certamente você não irá gostar do que vai ler. A minha implicância do dia se refere às pessoas que eu amo de paixão, mas que me irritam profundamente ao postar todas as suas refeições no Facebook ou Instagram. Não imagino de onde surgiu essa propulsão que as pessoas têm de comer uma coisa bonita, aparentemente gostosa e querer mostrar pra todo mundo o que está comendo! Aliás, hoje, o que não é postado parece que não existiu, né? Fico imaginando como esses meus amigos ficariam tristes se não pudessem postar a comida deles: -Humm... puxa... Não quero nem comer, perdi a vontade... O Instagram está fora do ar! E agora como vou mostrar pra todo mundo essa batatinha orgânica que fritei no óleo de canola argentino com cubinhos de bacon de jav...

Fala comigo?

- E, aí? O que anda fazendo de bom? Essa é uma pergunta que, se estivéssemos em meio a um coito, me faria brochar na hora.  Pessoa bacana, papo legal, diz coisas relativamente interessantes... mas quando solta o "o que anda fazendo de bom" faz com que se quebre todo o encanto. A vontade é responder: não estou fazendo nada de bom! Nada! A-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e nada! Tudo que faço é ruim, algumas coisas são perversas e outras são extremamente desagradáveis. Não faço nada de bom há anos. Não ajudo pessoas a atravessar a rua. Não salvo gatinhos na copa de árvores. Não dou bom dia ao vizinho. Minha vida é um ciclo de maldades. Poderia também dar outra possível resposta para essas pessoas que só querem saber o que fazemos de bom na nossa vida, sem sequer se interessar pelas coisas banais, pelo trivial, pelo dia a dia nosso de cada dia. Tipo, estou fazendo muuuuitas coisas boas. Minha vida é repleta de aventuras e emoções. Ontem desci as Cataratas do Niágara, semana p...

Mi faz feliz

Para iniciar nossa conversa se fazem necessários alguns conhecimentos musicais básicos. Você sabia que um violão tem seis cordas - que podem ser de aço ou de nylon? Sabia que de cima para baixo as três primeiras se chamam bordões e as três últimas são as primas? Antes de qualquer piada, não, não conheço as irmãs, tias ou sobrinhas, apenas as primas. Ainda de cima para baixo a primeira corda reproduz o mi, a segunda o lá, a terceira o ré, a quarta o sol, a quinta a si e a última o mi novamente. Pois vejam que curioso o mi, surge duas vezes. Certamente ele há de ser importante nessa história toda. Não sei sua real importância no contexto musical, mas para mim ele tem um significado particular que quero compartilhar fantasiosamente com vocês. O bordão fala aqui. A prima responde acolá. tom... tim... tom... tim... São uma única nota, mas que vibram diferentemente. Têm a mesma afinação e mesmo distante - por quatro outras cordas - não se perdem um do outro... tom... tim... to...

Esquecimento

http://www.conjur.com.br/2013-jun-05/stj-aplica-direito-esquecimento-primeira-vez-condena-imprensa

Tempos modernos

Como era mesmo o mundo antes do Facebook? Hummm... deixe-me ver se lembro... As fotos não eram instantâneas. Isso, a gente não sabia como tinha sido a viagem antes de a pessoa voltar de lá... parece que já existia e-mail... mas não lembro se usávamos...  E pra conversar com outras pessoas? Bem, salvo engano, existia um troço chamado Menssenger ou Messeger ou Messenger, algo parecido com isso... Ah, lembrei! MSN!!! Puxa, era até legalzinho "Bebelzinha acabou de entrar" e a cada conversinha fazia "bululup", eram tantos "bululups" de uma vez, vários emoctions e tals... puxa a gente conversava muito! Se eu forçar a minha memória um pouquinho antes... humm... tá vindo... tá vindo! Lembrei! Mensagens no celular! Era bem parecido com o Whatsapp de hoje, só que com beeem menos recursos... tínhamos que nós mesmos desenhar menininhos, menininhas, formiguinhas, gatinhos, carrinhos, peixes usando apenas pontos, parênteses, acentos, travessões. Sim, éramos mai...

Completude

Ando numa fase extremista. Ultimamente não tenho gostado muito dos meios-termos. Linhas tênues me deixam nervosa. Não quero meios amigos, não quero meia felicidade, não quero meio amor, não quero um sexo meio bom. Por isso que quando tenho de me sujeitar a meias experiências ou meios sentimentos fico de nariz torcido. Aperta lá dentro, no coração. Eu quero o que há de mais completo no mundo!!! Bom ou ruim, mas que venha por inteiro. Desprezo completo, raiva completa, mágoa completa, amor por inteiro, felicidade por inteiro, viver por inteiro é o que eu quero. As metades não têm me bastado. Mas até para ser completa é preciso tempo...

O primeiro pôr-do-sol

Voltávamos de um passeio quando meu neguinho, sentado na cadeirinha no banco traseiro, me faz a seguinte pergunta: -Mamãe, que que é aquilo? - apontando para frente. -Aquilo o quê, amor? -Aquele negócio lá na frente! -Que negócio, meu bem? -Aqueeele laranjado. Ele se referia ao céu. Nunca tinha observado o céu alaranjado do sol se pondo no horizonte. Por um momento parei para observar o quanto realmente estava lindo e fiquei chateada porque eu mesma havia deixado de repará-lo. Não era a primeira vez que eu o via - como o Pedro, aos quase quatro anos de idade. Entretanto, por muito tempo deixei de contemplar essas coisas e não tenho passado isso ao meu filho. Não é uma mea culpa, trata-se apenas de uma advertência para mim mesma de que o mundo é lindo e cabe a mim mostrar isso ao meu filho o quanto antes.

Odeio limão

Cheguei a uma brilhante conclusão: limão não me faz bem. Cerveja não me deixa de ressaca, vinho deixa uma ressaquinha bem pequenininha, whisky é tranquilo... mas o tal limão... pelo-amor-de-Deus!!!! é do Demônio!!! Tomei um drink docinho de morango, gostoso que só... depois tomei mais um com soda e curaçau blue... outro de moranguinho... até aí, tudo certo. -Me vê mais uma paradinha daquelas, meu amor (meu amor era como eu chamava o barman àquela altura do campeonato). -O morango acabou. -E o que você tem aí? -Limão. -Ah, então faz esse negócio de limão aí mesmo. -Vodka ou cachaça? -Tanto faz. Pronto. Daí pra frente a coisa degringolou geral. Por que eu não parei? Por quê??? Culpa do Belzebu que escolheu o limão para ser a sua casa. O Encardido está escondido entre os gominhos daquela fruta pestilenta! Juro solenemente neste blog que nunca mais deixarei um único limão sequer me prejudicar. Tenho dito!

Purtugueis

No Facebook: -O jeito é ir dormir pra fazer mais uma provinha amanhã. Seja o que Deus quizer . Deus pode até querer que ela passe, mas a banca já não sei.

A chegada do sol, parte II

Por duas semanas ela o observou. Do assento próximo à janela via-se todo o recinto, mas apenas a cadeira dele a interessava. Fitava a forma como ele colocava a Bic azul na boca e ficava balançando entre os dentes, tamborilando algum ritmo, provavelmente samba. Ele tinha cara de que gostava de samba, do bom samba - daquele feito por Adoniran Barbosa, não pagode do Soweto - das letras bem escritas, das canções melódicas e vibrantes ao mesmo tempo. Ela observava como ele sempre deixava uma perna no chão e a outra apoiada na cadeira da frente, de tempo em tempo invertendo-as. Anotava pouco do que o professor dizia. Chegava sempre atrasado, saía sempre mais cedo. No intervalo ia ao banheiro, tomava água no bebedouro, lanchava esfiha (um dia de frango, noutro de carne) e Coca-cola. Retornava para o seu lugar, conversava com alguém e a aula reiniciava. Dez dias úteis - e como foram úteis! - se passaram até que no ônzimo dia ela se aprochegou do rapaz. Já tinha o roteiro pronto: perguntar...

A chegada do sol, parte I

Da janela ela via uma pontinha da lua. Tão alva, tão distante, tão linda. Olhá-la proporcionava-lhe uma sensação de bem-estar. Era como se aquele satélite lesse o que se passava dentro dela e preenchesse o imenso vazio que sentia durante o dia. Mas a noite sempre vinha e com ela a alva lua, enchendo-lhe o coração de alegria solitária e paz. Mas um dia a luz se apagou. Não sabemos se apagou ou se a mulher deixou de notá-la...  estava tão absorta por outra alegria que, de repente, entrava na sua vida.  Era ele. O cabelo não era loiro, nem preto. Espera. Tinha cabelo? Ela não se lembra. A única memória que lhe vem à cabeça é a do seu coração palpitando. Espera. Tinha cabelo, curto, sim era curto. Barba por fazer. Olhar tímido. Bonito. Ele se senta e a lua se vai - para longe dos olhos da mulher.

Monteiro Lobato dança quadradinho de 8

Em alguns momentos duvido dos meus valores, daqueles conceitos que trago dentro de mim desde pequenininha. Isso acontece porque quando vejo um monte de gente aplaudindo coisas que eu não aplaudo e vejo outras condenando coisas que eu não condeno, começo a me perguntar se a errada sou eu ou o mundo. O quadradinho de oito. Ver essa nojeira na tevê, sendo aplaudida pelo público, replicada pelos programas, aclamada pelos apresentadores faz com que eu coloque em xeque primeiro o bom gosto alheio e segundo a decência dos meios de comunicação (leia-se, tevê brasileira).  Li na Carta Capital dessa semana mais um artigo falando das obras de Monteiro Lobato que se tornaram inapropriadas para as crianças por ter cunho preconceituoso, principalmente ao falar da cor da pele da Tia Anastácia. Não entendo como que falar que uma pessoa preta é preta pode ser expressão de preconceito. Não se pode falar que um gordo é gordo? Que um míope é míope? Sou contra o racismo e o preconceito express...

Teatro

(Cena 2: Sai Lulu, entra Drummond.) A flor e a náusea Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu. É feia. Mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.   Carlos Drummond de Andrade

Dê-me somente o que é meu

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Sempre sofri de cobrança. A pior de todas: a autocobrança. Digo que ela é pior, porque além de exigir coisas de mim mesma - com a melhor qualidade e o menor tempo - tratava de incutir na minha cabeça que os outros também depositavam em mim suas expectativas, ou seja, sofrimento em dose dupla. Se se cobrar traz desconforto, o processo de tomada de consciência e ruptura também o traz. É uma faca de dois gumes, só que de um lado é uma lâmina finíssima de corte preciso e de outro uma lâmina grossa, cheia de dentes e enferrujada.

Se quiser se casar com seu sogro, esqueça!

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Hoje no trabalho houve uma situação em que me lembrei que, durante meus estudos do Código Civil, li certa vez que não há dissolução de parentesco com a extinção do casamento ou união. Ou seja, você pode até ter ex-marido, mas nunca terá ex-sogro ou ex-sogra. (Sifu, mermão!) Isso mesmo. Carma é carma. Daí, afim de relembrar meus conhecimentos procurei no Google e veja só a primeira coisa que apareceu: http://espaco-vital.jusbrasil.com.br/noticias/100424361/a-gaucha-o-ex-marido-e-o-ex-sogro Eu sei que pode parecer muito tentador o casamento com o sogro, não é mesmo, meninas? Olhe bem para aqueles fios branco do bigode, entrando boca a dentro. Imagine a sua linda dentadura (com seus também lindos dentinhos) repousando dentro de um copinho com água na cabeceira da cama. Aquela barriguinha sexy esticando os botões da camisa (que foi branca um dia) bem fininha, quase puída porque é a que ele mais gosta e, portanto, usa todos os dias. E o pezinho que você deverá massagear todos os ...

O sentido do -ona

Conforme prometido, explicarei hoje as diversas aplicações do sufixo -ona.  Além de formar o feminino de algumas palavras terminadas em -ão, o -ona tem uma função emblemática para a mulher de meia idade. É raro ouvirmos que uma mulher, que como diz a minha vó, dessas que já passaram do meio-dia, é uma pessoa bonita, nova, enxuta, ajeitada,... Nããããooo!!! Sempre ouvimos "Fulana tá novona!", "Nossa, viu o tanto que ela tá ajeitadona?", "Rapaz, tô pegando uma coroa enxutona." e "Que isso, menina? Você ainda tá bonitona." Por favor, cravem uma faca no meu peito antes que eu ouça qualquer uma dessas expressões. O -ona utilizado assim sugere (por parte apenas de quem fala -  que isso fique bem claro!) um eufemismo, uma forma de suavizar a situação. Mas para mim, que já sei o seu real significado, isso é um xingamento. É como se o interlocutor dissesse: você está meio velhinha, mas ainda dá um caldo!  O negócio é o seguinte, se for elogiar por ...